MARIELLE FRANCO

A grande mídia que não perdoa Marielle

Gilson Dantas

Brasília

sábado 24 de março| Edição do dia

Quem matou Marielle? Quem mandou matar Marielle? Os setores mais combativos da juventude e de todos os movimentos sociais e sindicais do país clamam a plenos pulmões por essas questões e outras e encheram ruas de capitais em defesa de Marielle e do elementar direito de lutar contra essa democracia degradada e por transformações sociais.

No entanto, os interesses dominantes não cessam de agir para que a injustiça prevaleça e o crime, crime que foi cometido contra todas as Marielles do país – mulheres, negras, lésbicas e lutadoras - seja calado. Primeiro tentaram queimar sua imagem armando o circo de mentiras contra sua biografia, mas que foi prontamente desmascarado. Em seguida foi o governo que teve que recuar com a história do “roubo” de munição. E assim continuaram. E vão continuar, em defesa de uma ordem espúria.

Agora é a vez do jornal da grande mídia, “El País”, que sempre procura criar uma autoimagem benevolente, liberal, progressista, mas que em matéria de dias atrás, procurando ser simpático a Marielle, escancarou sua postura do tipo “esqueçamos Marielle”, “conciliemos todos”, uma matéria completamente funcional com a polícia e que estimula a impunidade.

Vamos reproduzir a seguir os trechos da matéria [Os culpados pela morte de Marielle, assinado por Rodolfo Borges], onde o mínimo que fala é que a morte de Marielle é o mesmo que a morte de policiais e que não se pode “ficar apontando o dedo para o outro lado”, que é preciso – citando Jaspers e Kant -, garantir uma conciliação, coisa que nos marcos do texto seria uma conciliação entre as forças que mataram Marielle e os movimentos de massas.

Essa linha do “conciliemos todos” e esqueçamos Marielle, é a mesmíssima linha do “perdão infinito”, do vamos perdoar os torturadores e torturados, abraçada pelas direções políticas que fizeram a transição pactuada com os generais ditadores. O torturador é perdoado por torturar, e o torturado por ser torturado.

No caso do "El País" o argumento do colunista é de que as vidas de Marielle e Anderson Gomes “valem tanto quanto as dos quase 30 policiais mortos este ano”. É ou não é a mesma lógica que equaliza torturador a torturado? E ainda insinua que talvez os policiais mortos mereçam até mais comoção do que Marielle.

O reacionarismo dessa grande imprensa continua ao argumentar que no caso de Marielle não é bom que haja “agendas político-ideológicas” e nem ficar “apontando o dedo para o outro lado”. E ao final insinua que o nosso problema é de que não conseguimos convencer nossos “adversários políticos” da agenda dos direitos humanos [da Marielle]. Ou seja, precisamos “convencer” o MBL, Temer, os interventores do Rio sobre a justeza da nossa causa e paremos de ficar apontando culpados... E no final vai arrematar que não podemos [o que valeria para os movimentos sociais, no caso] fazer nada que “torne impossível a conciliação posterior”. Conciliação que certamente só pode ser com os mandantes do crime e a casta política responsável por essa situação, começando por Temer.

Ou seja, um artigo extremamente funcional para as forças reacionárias que estão por trás da morte de Marielle e de milhares e milhares de trabalhadores negros e pobres das grandes periferias. Não apontemos culpados: conciliemos com a reação. Em vez de luta, conciliação. Em vez de luta de classes acordo com as forças mais reacionárias da nação.

Os movimentos de massa por Marielle pensam o contrário: as forças que foram e estão indo às ruas contra o crime hediondo que tem a ver com o Estado, diretamente ou por cumplicidade e omissão, precisam não sair das ruas; precisam avançar em suas demandas, organizar comitês de luta em cada local de trabalho, massificar o movimento e não confiar para nada nas investigações feitas pela polícia e o Estado. E apontar o dedo, sim, e muito mais que apontar o dedo, fortalecer o movimento de massas e o proletariado em sua estratégia contra o regime e o capitalismo.

E repudiar matérias como essa, de parte de um jornal da grande mídia que posa de liberal, mas que na hora H, luta pela ordem e pela anistia e conciliação com as forças mais sinistras da reação que levaram a vida de Marielle. E, claramente, defende policiais, defende a “política” de convencer as forças reacionárias para não serem reacionárias.

Marielle vive!

Confira trechos da matéria [que pode ser lida na íntegra aqui]:

Ainda não se sabe se ela foi vítima de milicianos, traficantes ou quem quer que seja, mas se enxerga e se aponta responsáveis por todo o lado. Há quem veja culpa no Governo Michel Temer, que ainda não parece saber muito bem como intervir na segurança do Rio de Janeiro. Para outros, a culpada é a própria Marielle, porque, enquanto militante do PSOL, ela promovia, segundo eles, políticas que favorecem criminosos. De quem é a culpa? [...]

Quem não gosta da agenda ideológica representada por Marielle tenta diminuir o valor de sua morte. Mas é muito mais fácil engrandecer do que diminuir uma morte como essa. Por outro lado, dizer que a vereadora foi morta porque era mulher ou negra ou por conta de sua sexualidade não ajuda a entender o que aconteceu.
A vida de Marielle vale tanto quanto a do motorista Anderson Gomes, que morreu junto com ela, e a de Cláudio Henrique Costa Pinto, assassinado na frente de seu filho de cinco anos durante uma tentativa de assalto na Zona Norte do Rio de Janeiro naquela mesma noite. Todas essas vidas também valem tanto quanto as dos quase 30 policiais mortos no Estado apenas neste ano. A diferença do caso de Marielle para os outros — e talvez os policiais merecessem mais comoção nesse sentido — é que, junto com ela, as balas da pistola 9mm acertaram o Estado brasileiro. E o Estado brasileiro, representado, nesse caso, pelo cargo de vereador, somos todos nós. A ordem institucional foi alvejada.

Apontar o dedo para o outro lado numa hora como esta parece inevitável. E quem achar que é hora de avançar agendas político-ideológicas, porque isso vai melhorar alguma coisa, que o faça. É legítimo, ainda mais para aqueles que sempre militaram ao lado de Marielle. Mas talvez não seja disso que o país mais precise agora. [...]
´É fácil adotar uma opinião e mantê-la para poupar-se o trabalho de continuar pensando; é difícil avançar passo a passo e não impedir mais questionamento´ [Jaspers]. Se você acredita na agenda dos direitos humanos, é hora de se perguntar por que não consegue convencer seus adversários políticos da importância disso. O mesmo vale para quem não acredita na forma como essa agenda é promovida: por que algumas pessoas acham que você é um monstro?

Empurrar a culpa para o outro lado é o mais fácil. Mas as pessoas de quem você discorda não vão sumir. A internet permitiu que questões que eram dadas como consensos ressurgissem. Na verdade, essas questões nunca deixaram de existir. E o funcionamento da nossa República depende do diálogo entre pessoas que pensam diferente, sem estigmas, sem deboches, sem distorções e, se possível, com as emoções sob controle. Jaspers cita Kant para dizer que “na guerra não pode haver atos que tornem simplesmente impossível uma conciliação posterior”.

[Crédito de imagem, modificada: Agência O Globo]




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