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SEMANÁRIO

A globalização da luta de classes e a utopia do partido revolucionário em um só país

Matías Maiello

Tradução de Marie Reisner.
Ilustração de Juan Atacho.

A globalização da luta de classes e a utopia do partido revolucionário em um só país

Matías Maiello

Nos artigos anteriores desenvolvemos reflexões sobre os processos atuais, a relação entre a revolta e a revolução a partir de diversos ângulos. Nestas linhas vamos abordar a relação entre os diferentes processos nacionais de um ponto de vista internacional para nos centrarmos no significado que a luta internacional ganha na atualidade.

A nova onda de luta de classes que hoje percorre o mundo tem como alguns dos seus traços distintos justamente sua grande extensão geográfica. Abarca países do norte da África, passando pelo Oriente Médio, até Hong Kong, assim como da Europa à América Latina. Os atuais meios de comunicação, as redes e a imediatez da informação contribuem de alguma forma para a propagação dos protestos, mas a explicação deste fenômeno é muito mais profunda.

O que se conhece geralmente como “globalização” na verdade foram décadas de ofensiva imperialista - desde o final do século passado até o que percorremos deste -, em que a força do saque e maiores níveis de exploração propiciaram um salto na internacionalização do capital por meio de um processo de desenvolvimento desigual e combinado que foi deixando, junto a uma minoria de “ganhadores”, uma grande maioria de “perdedores”.

A crise histórica do capitalismo que estourou em 2008 veio para acentuar este cenário. Colocou em evidência a decadência de um capitalismo incapaz de gerar novos motores da economia mundial. Um imperialismo norte-americano decadente e, como única nova potência mundial e uma espécie de reanimador econômico de todo o último período, a China, que deve sua existência atual à unificação efetiva do país conquistada pela revolução de 1949, que expropriou a burguesia e avançou para a planificação (burocrática) da economia. A burocracia do PCCh sustentou primeiro o programa do “socialismo em um só país”, para depois restaurar o capitalismo e recorrer a esse alcançado para uma “modernização” pelas mãos do capital internacional. Assim, somente graças à apropriação mediante a restauração capitalista daquilo que foi gerado contra ela, a burguesia imperialista conseguiu sua principal fonte de desenvolvimento atual, baseada em enormes níveis de exploração e precarização, que tem muito pouco a se invejar das condições de dois séculos atrás. Mas a China não tem a consistência histórica para arbitrar outra vez a hegemon mundial sem mediar novas guerras em grande escala.

A eleição na Grã Bretanha nesta semana exemplificou bem a deriva capitalista (N.T: desvio, desorientação). A grande patronal britânica que antes se opunha ao Brexit, agora que entrincheira atrás de Boris Johnson, o Trump Britânico. A burguesía navega sem rumo claro, ao vento da brutalidade contra os imigrantes, do nacionalismo e das fake news.

Na América Latina, assim como no restante dos países dependentes e semicoloniais, faz muito tempo que as burguesias abandonaram qualquer pretensão de emancipação nacional. Ajoelhadas aos pés do imperialismo, no máximo tentam conquistar um lugar como atores coadjuvantes. Nem o neoliberalismo ultrado como o de Bolsonaro/Guedes, nem o “pós-neoliberalismo” como o de Alberto e Cristina Fernández se propõe a nenhum plano de desenvolvimento autônomo. Para os primeiros se trata simplesmente de entregar tudo que for possível ao imperialismo através do saqueio e de avançar contra as condições de vida do povo trabalhador. Para os segundos, no máximo buscam minimizar certos efeitos de uma estrutura sócio-econômica totalmente subordinada ao imperialismo que não se questiona, e que condena as maiorias a padecer com catástrofes periódicas. Inclusive nas versões mais radicais do “pós-neoliberalismo”, como o chavismo, este foi incapaz de modificar uma estrutura dependente presa aos vai-véns dos preços do petróleo.

Somente a unidade da classe trabalhadora junto ao povo explorado e oprimido dos países latino-americanos, ligando sua luta à da classe trabalhadora dos países centrais, pode se erguer como verdadeira alternativa, conquistando seu próprio poder para resolver integralmente e efetivamente as tarefas democráticas e a emancipação nacional frente ao imperialismo e seus sócios locais, e estabelecendo uma nova ordem social. A questão estratégica é como as explosões da luta de classes que hoje atravessam a região e o mundo não se esgotem em processos de pressão (inclusive extrema), mas que abram esta perspectiva, que é necessariamente internacional.

Contra a utopia, certamente muito estendida, de que é possível construir um partido (verdadeiramente) revolucionário “em um só país”, esta luta coloca um problema chave: a necessidade de um partido revolucionário internacional. Pois bem, por onde passa e em que consiste hoje a luta por um partido assim?

Uma luta nacional na sua forma e internacional em seu conteúdo

Os processos atuais da luta de classes, com suas especificidades e dinâmicas particulares, demonstram que não existe uma passagem automática da revolta à revolução. Neste sentido a luta pela hegemonia operária é um ponto chave, assim como a disputa com as direções do nacionalismo burguês, do reformismo e da burocracia.

Como diziam Marx e Engels no Manifesto Comunista, trata-se de lutas que são nacionais na sua forma, mas internacionais no seu conteúdo. Trotsky destaca, sobre o pensamento de Lênin, que o internacionalismo “não é de maneira nenhuma uma forma de reconciliar verbalmente nacionalismo e internacionalismo, mas uma forma de ação revolucionária e internacional”. E adiciona que nesta concepção “o mundo (…) aparece como um só campo de combate no qual diferentes povos e classes sustentam uma gigantesca guerra uns contra os outros”.

A partir deste ponto de vista, a luta internacionalista - e a batalha por construir partidos em cada país - está indissoluvelmente ligada à busca por prever, ensaiar, na medida das nossas forças, a ação do que seria um partido revolucionário internacional, já que uma organização assim não surgiria em outro momento que não no calor dos combates que este novo ciclo da luta de classes começa a colocar na ordem do dia. Isso buscamos fazer na FT-QI, organização internacional à qual pertence o PTS na Argentina (o MRT no Brasil), a partir dos 14 países nos quais intervimos [1], assim como a Rede Internacional de diários La Izquierda Diario.

Essa concepção de internacionalismo como “um só campo de combate” leva a estabelecer determinados centros de gravidade da ação de uma corrente internacional onde os trabalhadores estão dando sua batalha mais dura e avançada. Mas ao mesmo tempo implica na intervenção simultânea em cenários nacionais muito diferentes, com diversas correlações de força, processos políticos, etc, que são parte de um mesmo teatro da luta internacional.

França e Chile como centros de gravidade da luta de classes atuais

Atualmente o eixo da intervenção da FT está na França, onde está acontecendo o enfrentamento mais significativo da luta de classes internacional, que do desenvolvimento e retirada da reforma da previdência poderia abrir uma nova situação com repercussões muito além das suas fronteiras; e no Chile, que é o principal processo em escala latino-americana.

A grande demonstração de forças que vem sendo dada pela classe trabalhadora francesa, nada menos que no coração da Europa [2], com seus métodos de greve, piquetes e importantes mobilizações há mais de 10 dias, veio para demonstrar sua potência quando em vez de intervir diluída na “cidadania” em geral, coloca em jogo suas “posições estratégicas” e paralisa os ônibus, os metrôs, os trens, os portos, as refinarias, os aviões, as escolas, etc. Os anúncios do governo de Macron desta semana sobre a reforma da previdência não tiveram outro efeito além de aprofundar e estender a greve, que conta com um grande impulso entre os trabalhadores de base, especialmente em setores como a RATP (transporte metropolitano de Paris). Mostrando, como sinaliza nosso companheiro Juan Chingo em seu livro Gilets jaunes. Le soulèvement (quand le trône a vacillé) [3], um processo de “giletjeunización” (N.T: colete-amarelização) de setores do movimento operário.

Rapidamente a burocracia sindical, nas suas diferentes variantes, que em seu momento se encarregou de separar os sindicatos dos Coletes Amarelos, longe de defender uma greve por tempo indeterminado até derrotar a reforma, não descartou novamente se sentar para negociar. O êxito da greve e a luta de massas passa por se esta consegue se desdobrar como um verdadeiro movimento popular (Rosa Luxemburgo) e fica nas mãos dos próprios grevistas através de assembleias, comitês de greve e coordenações, que por sua vez permitam garantir a paralisação e organizar a autodefesa.


Foto: Encontro em Saint-Lazare.

Neste sentido, nossos companheiros e companheiras da Corrente Comunista Revolucionária (CCR), tendência revolucionária dentro do NPA, vem batalhando para erguer entidades de autoorganização e coordenação reais. Como o encontro em Saint-Lazare (Paris) convocado pelos trabalhadores da RAPT e os da SNCF (empresa ferroviária), com trabalhadores de ônibus, metrô, ferroviários, professores, estudantes, Coletes Amarelos, etc. Entidades que têm sido chaves para organizar os piquetes para garantir a greve em um popular programa de televisão, desmascarando a hipocrisia do governo. O jornal Révolution Permanente, que já em 2018 havia se transformado em um ponto de referência em torno do movimento dos Coletes Amarelos com mais de 2 milhões de visitas mensais, volta a cumprir um importante papel no momento atual.

[Video: Anasse Kazib polemiza com o ministro de transporte francês.]

A luta de fundo, no entanto, segue sendo a necessidade de erguer um partido revolucionário na França. O processo anterior dos Coletes Amarelos já demonstrou o fracasso tanto de uma orientação sindicalista na margem do movimento (Lutte Ouvrière), como a de construir “partidos amplos” sem um programa nem uma estratégia revolucionários, para participar superficialmente “nos movimentos” tal como são. A CCR vem batalhando abertamente dentro do NPA contra essa política de “partido amplo” (por isso nunca votou nos “princípios fundadores” do NPA) e por um partido revolucionário unificado da extrême gauche [N.T.: extrema esquerda] (LO e NPA) que se proponha a centralizar toda a nova camada de trabalhadores e trabalhadoras que estão protagonizando os duros combates atuais.

Em um cenário muito diferente, como é o caso do Chile, com mais de 50 dias de intensas jornadas de luta atravessadas por diferentes conjunturas, nossos companheiros e companheiras do Partido de Trabalhadores Revolucionários (PTR) vem intervindo ativamente a partir de Santiago, Antofagasta, Valparaíso, Arica, Temuco, Puerto Montt, Rancagua e outras das principais cidades do país. Lutando para erguer organismos de auto-organização, fundamentais para a articulação dos diferentes setores do movimento (precários, efetivos, estudantes, movimento de mulheres, etc), impulsionando iniciativas que ganharam especial importância, como o Comitê de Emergência e Abrigo em Antofagasta, ou em torno do Hospital Barros Luco em Santiago, etc. Enfrentando a repressão. Realizando uma agitação política sistemática por um programa transicional em cada fábrica, empresa, hospital, escola, universidade onde intervém, e a partir das páginas do La Izquierda Diario do Chile, que superou 4 milhões de visitas em menos de dois meses. Batalhando por uma Assembleia Constituinte verdadeiramente livre e soberana sobre as ruínas do regime e exigindo a renúncia de Piñera. Por estas posições, Dauno Tótoro, dirigente do PTR e ex-candidato nas eleições municipais de Santiago de 2017, foi acusado pelo governo sob a Lei de Segurança do Estado por “incitação à subversão”. Piñera busca simbolizar na perseguição política de Dauno a dos milhares de jovens e trabalhadores que lutam por esta mesma perspectiva.


Foto: Ato impulsionado pelo Comitê de Emergência e Abrigo em Antofagasta.

Se no último 12 de novembro no Chile o movimento operário protagonizou a paralisação nacional mais importante desde a queda da ditadura, que deixou colocado um salto revolucionário na situação, desmentindo toda a visão facilista, o regime se valeu da ajuda do reformismo e da burocracia para combater esta perspectiva. Desde a enganação do chamado “Acordo pela paz social e a nova constituição”, que incluiu um setor da Frente Ampla (FA) como protagonista, buscando tirar das ruas uma parte do movimento, até a lei anti-protesto votada pela maioria da FA e com ampla abstenção cúmplice do PC, e a escandalosa trégua que sustentam atualmente a CUT e a Mesa da Unidade Social com o governo. Tudo isso demonstra quão urgente é a luta por erguer um partido revolucionário no Chile, que está sendo impulsionada pelo PTR.

América Latina e o amplo teatro da luta internacional

América Latina, onde a FT-CI tem sua maior concentração militante, vem sendo uma das regiões onde mais tem se estendido este ciclo de levantamentos, mas onde também se expressam diferentes tendências. Por um lado, o emergir da luta de classes que víamos com o Chile, e que por sua vez se expressou e/ou se expressa na Colômbia, no Haiti, em Honduras, no Equador, no Porto Rico, e a resistência na Bolívia. Mas por outro lado também, as tendências reacionárias e bonapartistas, que têm seu mais recente expoente no golpe na Bolívia, e seu principal bastião no governo de Bolsonaro no Brasil, que vem implementando uma ofensiva em grande escala contra os trabalhadores e o povo (reforma da previdência, trabalhista, privatizações, etc.). As mesmas também se mostram na crescente intervenção dos exércitos nos diferentes países para enfrentar o movimento de massas.

Neste cenário, as correntes reformistas, “nacional-populares” e as próprias burocracias sindicais, agitam a necessidade de se moldar ao “malmenorismo”, alegando que é preciso evitar o enfrentamento e a luta de classes pois se não a direita avançará, sendo que a história recente da nossa região mostra o contrário. O Brasil é um evidente exemplo. O PT governou por anos a serviço do capital, assimilando seus métodos. Frente à crise e à irrupção de massas de junho de 2013, antecedente imediato do ciclo atual, respondeu com novos ataques ao povo trabalhador, e contribuiu assim para a desmoralização de sua própria base social, preparando o caminho para a direita, sem travar uma batalha frente ao golpe institucional, e nem mesmo frente à prisão de Lula, o que terminou abrindo caminho para o ascenso de Bolsonaro.

Assim, no Brasil, os companheiros e companheiras do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) há anos vem lutando por uma esquerda independente que seja uma verdadeira alternativa, sendo que, durante este processo, uma parte dela (PSTU) ficou localizada no campo do golpismo institucional, enquanto o principal partido da esquerda (PSOL) se manteve orbitando em torno do PT. Com aquele objetivo, naquele momento específico, o MRT pediu publicamente a entrada no PSOL, colocando abertamente que queria batalhar nas suas fileiras por um programa e uma estratégia revolucionárias, motivo pelo qual nunca foi admitido pela direção majoritária. É a partir desta perspectiva que o MRT intervém impulsionando a luta contra os ataques de Bolsonaro e combatendo a completa passividade da burocracia sindical (CUT, CTB), assim como da estudantil (UNE) em cada lugar onde está: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Brasília, Rio Grande do Norte, Paraíba, entre outros, em cada sindicato, centro acadêmico, etc. [4]. Também o faz a partir do diário digital Esquerda Diário, que é hoje por hoje o principal jornal da esquerda brasileira, e que durante a crise de ascenso de Bolsonaro chegou a 6,5 milhões de visitas em um mês.

Bolívia coloca outro claro exemplo de como o “malmenorismo”, passivizando e desmoralizando o movimento de massas, deixa a direita avançar. Se a resposta frente ao ódio da elite branca para com os povos originários mostrou - como aponta nosso companheiro Javo Ferreira em seu livro Comunidad, indigenismo y marxismo – a vitalidade e a força mobilizadora que possuem as demandas nacionais indígenas, a traição do MAS, legitimando o governo golpista de Áñez, foi chave para desarticular a luta contra o golpe, ao que se somou a passagem da direção da COB ao golpismo.

A heróica luta de El Alto, o bloqueio em Senkata, mostraram a vontade de luta. Os companheiros e companheiras da LOR-CI participaram dela na medida das suas forças, dando uma dura batalha também em setores do movimento operário que viam o golpe com bons olhos, buscando contribuir na organização da juventude de El Alto, que se nega a “negociar com nossos mortos”, e agitando um programa independente a partir do La Izquierda Diario Bolívia, que foi uma das únicas mídias que expressou permanentemente a luta de El Alto. Neste cenário, aconteceu a completa bancarrota do POR, o histórico partido da esquerda boliviana, que se entrincheirou com o golpismo. A atual resistência frente ao governo golpista, a repressão e as perseguições, expressam a necessidade cada vez mais urgente de construir uma nova organização revolucionária na Bolívia.

[Vídeo: Intervenção no Conselho de Senkata (20-11-19).]

Na Argentina, vivemos a estratégia de passivização logo após as jornadas de dezembro de 2017. A ação da burocracia sindical e do kirchnerismo foram chaves para liquidar a perspectiva da luta de classes, possibilitando que Macri aprofundasse os ataques (dívida, desvalorização, demissões, pobreza, aumento das taxas, etc.). Uma herança que agora Alberto Fernández, tentando criar equilíbrio entre as profundas tendências que atravessam a região, coloca como ponto de partido de seu governo, sem que os verdadeiros ganhadores (os bancos, os grandes capitalistas e o agropower) sejam chamados a pagar a conta para resolver verdadeiramente o saque.

Quando a nível internacional muitas organizações de esquerda se vinculam a “frentes anti-direita” ou “anti-neoliberais” ou se entrincheiram atrás de algum dos campos nos quais se dividem os capitalistas, a Frente de Esquerda - Unidade expressa um modesto mas importante exemplo contrário que já dura 8 anos. Uma aliança eleitoral principista com um programa claro de independência de classe, antiimperialista (como se mostrou, por exemplo, no posicionamento da FIT contra o golpe na Venezuela) e de luta por um governo dos trabalhadores. Atravessada também, como é de se esperar em uma frente com diferentes partidos, por discussões, nos casos onde surgiram diferenças importantes, como por exemplo, em relação ao processo político na Venezuela ou no Brasil, entre outros, assim como diferenças públicas no que diz respeito à prática de cada partido.

Sob esta base, para as tarefas que teremos adiante no marco do novo ciclo da luta de classes internacional, se faz cada vez mais necessária a proposta que viemos fazendo a partir do PTS de avançar na construção de um partido unificado da esquerda, dos trabalhadores e socialista, claramente delimitado do reformismo e do “anticapitalismo” em geral, um partido para a luta de classes com um programa e uma estratégia revolucionários. Este não pode não ter como ponto de partida a luta pela construção por uma internacional da revolução socialista.

Rede de jornais e internacionalismo

Lênin concluía o Que fazer? colocando o objetivo de um jornal que “seja difundido regularmente em dezenas de milhares de exemplares em toda a Rússia”, para ter um meio para levar adiante o objetivo de se transformarem em “tribunos do povo”, através de uma agitação ampla e sistemática. Quando defendia isso não teria imaginado as possibilidades que temos hoje de desenvolver jornais não apenas para um país, mas para múltiplos países e em diversos idiomas, simultaneamente.

As novas tecnologias têm potencializado este leninismo e com ele também as possibilidades do internacionalismo. O desenvolvimento da internet, das redes sociais e plataformas digitais, inclusive com os obstáculos impostos pelo seu controle capitalista e a tirania do “algoritmo”, colocam novas possibilidades para a agitação política revolucionária, para sua massividade, seu desenvolvimento “em tempo real” e seu alcance nacional e internacional, permitindo colocar as ideias a frente do “aparato” para o desenvolvimento de correntes militantes que busquem manter um diálogo permanente com setores de massas.

Com a rede de diários La Izquierda Diario –vários dos quais contam com milhões ou centenas de milhares de visitas mensais, estamos tentando, na medida das nossas forças, retomar aquele método “leninista” nestas novas condições. A rede conta atualmente com 12 edições nacionais e 8 idiomas (espanhol, catalão, português, alemão, inglês, francês, italiano e uma seção em turco). Por um lado, isso permite ir contra a prática de reduzir a agitação política a uma questão intermitente e exclusivamente “por cima” durante as eleições a cada dois anos. Por outro lado, o caráter internacional e cotidiano da rede de diários permite uma prática internacional comum muito além do método, muito difundido na esquerda, de acordos diplomáticos internacionais entre correntes, e que não refletem nenhum acordo real na intervenção na luta de classes.

Na atualidade, existem em diferentes países múltiplas correntes que se reivindicam socialistas revolucionárias, que contam com militância, quadros, intelectuais, e recursos (inclusive através da atividade parlamentar) que com certeza poderiam se propor desenvolver jornais diários, nacionais e internacionais, para chegar a milhões com uma agitação revolucionária. No entanto, o rotineirismo eleitoral e sindical conspira contra isso, assim como também o faz contra qualquer internacionalismo consequente que não se limite ao que seja puramente discursivo.

Isso é especialmente agudo em lugares como a Argentina, onde a esquerda tem peso maior e responsabilidade. Não desenvolver mídias próprias que busquem sair dos estreitos círculos da esquerda, e depender da “boa vontade” das empresas de mídias massivas ou limitar a agitação de massas a uma prática intermitente uma vez a cada dois anos, é cair no mais crasso eleitoralismo e movimentismo. Por isso é que, a partir do PTS, partindo da base do que foi conquistado com o LID e a Rede de Diários (o programa de rádio El Círculo Rojo, o semanário Ideas de Izquierda, as publicações semanais de “Reperfilando”, o Campus Virtual, os desenvolvimentos nas diferentes redes sociais, etc.) nos propomos multiplicar essa iniciativa no próximo período, e como parte de uma ampla atividade de agitação, propaganda e organização, erguer uma forte multimídia, tanto nacional quanto internacional com nossos companheiros e companheiras da FT, para chegar com nossas ideias a milhões.

A luta pela reconstrução da IV Internacional

Na tradição do movimento operário revolucionário, a construção de partidos revolucionários a nível nacional está indissociavelmente ligada ao internacionalismo. Em torno dos principais combates da luta de classes internacional se forjaram a Associação Internacional de Trabalhadores (Primeira Internacional); a II Internacional, até a sua bancarrota nacionalista frente ao estouro da Primeira Guerra Mundial (1914); a III Internacional, surgida no calor do ascenso que produziu a Revolução Russa em 1917 e logo burocratizada e liquidada definitivamente pelo stalinismo ao não apresentar combate frente ao ascenso de Hitler. Em 1938, em luta contra a burocracia stalinista e suas frentes de colaboração com a burguesia, pela regeneração do poder dos Soviets e pela internacionalização da revolução contra a “teoria” nacionalista de que o socialismo poderia ser construído “em um só país”, é fundada a IV Internacional encabeçada por Trotsky.

A luta por uma internacional da revolução socialista hoje, parte para nós de retomar estas bandeiras e reconstruir a IV Internacional em um cenário mundial que mudou substancialmente desde então. Nenhuma organização das atualmente existentes que se reivindicam revolucionárias pode resolver por si mesma esta tarefa de magnitude histórica, que necessariamente será o resultado da fusão, não apenas das alas esquerdas das organizações revolucionárias, mas, sobretudo, de setores da vanguarda operária e de juventude que se orientem para a revolução social no calor da crise e da luta de classes.

A FT-QI sempre apostou neste tipo de confluência. Para isso retomamos o método utilizado por Trotski no caminho para a conformação da IV Internacional, buscando acordos frente às grandes questões estratégicas e programáticas que a crise capitalista e os novos processos de luta de classes colocam em debate na esquerda mundial, assim como na prova prática política e a luta de classes. Partimos, como aconselharia Trotski, de não considerar simplesmente “os grandes combates do proletariado apenas como acontecimentos objetivos, como expressão da ‘crise geral do capitalismo’”, mas sim “como experiência estratégica do proletariado”. Trata-se precisamente de conquistar acordos não diplomáticos, não formais, mas que estejam embasados nestas lições que que sirvam para organizar a ação comum. [5].

O feito de que sirvam para a ação não é um capricho, mas é justamente o que faz a necessidade de intervenção em diferentes combates e situações como as que fomos descrevendo, e sem as quais não há nenhum internacionalismo prático. Não existe prática revolucionária sem recriar constantemente uma teoria revolucionária, e por isso a elaboração teórica cumpre um papel fundamental na atividade da FT-QI e deveria fazê-lo em qualquer organização que se preze e se identifique como socialista revolucionária, questão que desenvolveremos em um próximo capítulo.

A 30 anos da queda do muro de Berlim, um novo cenário internacional está se delineando. A crise histórica do capitalismo, o retorno do nacionalismo das grandes potências, e o ciclo da luta de classes que percorre o mundo, colocam a perspectiva de enfrentamentos muito mais profundos, e com estes cada vez mais agudamente a necessidade de uma internacional revolucionária, que esteja à altura das circunstâncias para lutar por uma nova ordem socialista. Pois bem, o ciclo atual também coloca novas e melhores condições para lutar pela reconstrução da IV Internacional. O que importa é aproveitá-las plenamente desde já, antes que seja tarde.

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FOOTNOTES

[1A FT-QI está integrada por: Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) de Argentina / Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) de Brasil / Partido de Trabajadores Revolucionario (PTR) de Chile / Movimiento de los Trabajadores Socialistas (MTS) de México / Liga Obrera Revolucionaria (LOR-CI) de Bolivia / Corriente Revolucionaria de Trabajadoras y Trabajadores (CRT) del Estado Español / Courant Communiste Révolutionnaire (CCR) que forma parte del NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste) de Francia / Revolutionäre Internationalistische Organisation (RIO) de Alemania / compañeros y compañeras de Left Voice de Estados Unidos / Liga de Trabajadores por el Socialismo (LTS) de Venezuela / Corriente de Trabajadores Socialistas (CTS) de Uruguay. E como organizações simpatizantes: Frazione Internazionalista Rivoluzionaria (FIR) de Italia / Corriente Socialistas de las y los Trabajadores (CST) de Perú / Organización Socialista de Costa Rica.

[2A Europa está atravessada, além da França, pela reativação da luta independentista na Catalunha, contra o reacionário regime monárquico espanhol, na qual vem intervindo nossos companheiros e companheiras da Corriente Revolucionaria de Trabajadoras y Trabajadores (CRT), tanto na própria Catalunha como em Madrid, Zaragoza, Vigo, Burgos e outras cidades, como se pode acompanhar tambem no Izquierdadiario.es como na sua edição em catalão Esquerra Diari. E por outro lado, pelos fenômenos de direita como pudemos ver nesta semana com a contundente vitória eleitoral de Boris Johnson. Ou na Alemanha, onde intervém a Revolutionäre Internationalistische Organisation (RIO) da FT-QI em uma situação marcada pelo fortalecimento da extrema direita da AfD (Alternativa pela Alemanha).

[3Coletes Amarelos. O levantamento (quando o trono cambaleou)

[4Recentemente ratificando uma importante representação no corpo de delegados do sindicato de trabalhadores da Universidade de São Paulo, e ganhando os centros acadêmicos de Letras e da Educação desta universidade, para esta batalha.

[5Com esta lógica temos confluído nos últimos anos com o grupo italiano FIR, cujos militantes provém da juventude do PCL, também com a CSR do Peru e da Organização Socialista da Costa Rica.
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Matías Maiello

Buenos Aires
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