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A garota dinamarquesa que enfrentou a transfobia

Está em cartaz nos cinemas o filme A Garota Dinamarquesa, baseado na história de Lili Elbe, cuja vida expressa a árdua luta de uma mulher transexual na década de 1920 pelo reconhecimento à sua identidade e à não patologização desta. Conta ainda o segundo caso documentado de intervenção cirúrgica para a mudança genital.

Fernando Pardal

@fepardal

sexta-feira 12 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Hoje em nosso país a população trans vive uma realidade cruel: somos o país número um em assassinatos de travestis e transexuais, sendo que esse número, por falta de uma contabilidade oficial confiável, é certamente muito maior na realidade. Além dos assassinatos, o índice de suicídios motivados por transfobia ou de outros crimes e danos psíquicos causados por essa forma de opressão são assustadores. Isso tudo leva a que a expectativa de vida da população trans seja de apenas 35 anos, sendo a do restante da população de aproximadamente 75 anos. A maioria da população trans ainda se encontra relegada a situações de marginalidade, como a prostituição.

O filme “A Garota Dinamarquesa”, dirigido por Tim Hooper, que estreou no Brasil recentemente, conta a dura história de Lili Elbe, uma mulher trans que lutou no início do século passado, quando sequer se reconhecia a existência da transexualidade, pelo seu direito a assumir sua identidade de gênero feminina. Baseando-se no livro homônimo, o filme não tem como intuito retratar fielmente os detalhes da vida de Lili: muitos aspectos de sua história foram mudados pelo autor do livro, David Ebershoff, cuja intenção era mais a de trazer a inspiradora luta de Lili do que se ater a detalhes biográficos.

O papel de Lili é encarnado magistralmente pelo ator Eddie Redmayne, que recentemente tornou-se conhecido por encarnar o físico Stephen Hawkings no longa “Teoria de Tudo”; apesar das críticas que foram feitas ao filme por escalar um homem cis para viver Lili, a atuação de Redmayne é de incrível sensibilidade, e sem dúvida é um dos pontos altos do filme. É impossível ao espectador não conectar-se aos sofrimentos e alegrias de Lili ao longo de sua árdua jornada para assumir sua identidade. A atriz Alicia Vikander vive o papel de Gerda Wegener, que, casada com Lili, vive ao seu lado cada passo dessa jornada. Gerda, casada com o pintor Einar Wegener, avança lentamente e sempre com uma comovente cumplicidade ao lado do marido em sua descoberta de Lili, a mulher que “sempre existiu dentro dele”.

O abandono de sua identidade masculina como Einar e seu “renascimento” como Lili é doloroso, gradual, e marcado por duros passos não apenas de Einar, mas também de sua companheira Gerda. Em meados dos anos 1920, a medicina ainda se pautava pelos rudimentares e moralistas conceitos da chamada “sexologia”, uma pseudo-ciência médica que se encarregava de analisar o comportamento sexual humano, sempre pautando-se em uma “normalidade” e, em oposição a esta, englobando tudo aquilo que considerasse desviante, portanto, doente, no conceito de “perversão”. Assim eram vistos os fetiches, a homossexualidade, a transexualidade e todo tipo de manifestação sexual que não se enquadrasse dentro do casamento heterossexual monogâmico destinado à reprodução (o que evidentemente encobria uma moral sexual totalmente hipócrita, na qual a prostituição e a infidelidade masculina eram, como hoje, totalmente toleradas). Nessa mesma época a psicanálise fazia as primeira críticas contundentes ao conceito de perversão da sexologia; mas Lili estava muito distante desse conhecimento ainda muito restrito e profundamente criticado pelos médicos, e em sua jornada passou pela mão de diversos "especialistas" que queriam “curar” sua “perversão” das formas mais bizarras que se pode imaginar.

A lindíssima fotografia de “A Garota Dinamarquesa”, aliada à atuação excepcional de seus protagonistas, mostra como, em meio a esse inferno da medicina de uma sociedade patriarcal e conservadora, a arte, por sua sensibilidade e intuição, e por meio das mãos de Gerda, pôde fornecer um respiro e compreensão para Lili. Esta história nos chegou por meio dos diários que Lili escreveu nos intervalos entre as quatro cirurgias pelas quais passou para sua transformação genital (o filme e o livro retratam como apenas duas), um processo médico pioneiro que procurava não apenas remover o pênis, os testículos e o escroto de Lili e dotar-lhe de uma vagina, mas ainda tinha como intuito implantar ovários e um útero, dotando-lhe da capacidade de gestar. Esse procedimento, que era antes um sonho distante, está hoje em dia próximo de tornar-se realidade para as mulheres trans, de acordo com uma pesquisa pioneira que está em curso em Ohio, nos EUA.

Os diários de Lili foram publicados em 1933, tonando sua história famosa e uma inspiração para a população trans até os dias de hoje. Se é verdade que tanto o livro quanto o filme alteram partes substanciais de sua história, e o filme em particular procura tornar essa história mais “açucarada” para servir melhor aos padrões de romances hollywoodianos, isso tudo parece bastante secundário nesse caso. O mérito de trazer em um filme comovente e muitíssimo bem feito a história de uma mulher trans que lutou pelo seu direito, de popularizar essa história e colocá-la nas salas de cinema onde o machismo, a transfobia e a homofobia são a regra, conferem a esse filme um papel fundamental na história do cinema retratando os LGBTs. Por isso, se não por outros muitos méritos desse filme, vale a pena assistí-lo e recomendá-lo. Que centenas e milhares de histórias como as de Lili Elbe nos inspirem cada dia mais para seguir lutando pelo direito à vida, à identidade de gênero e à libertação de toda as pessoas trans, que hoje são tão duramente atacadas todos os dias nessa sociedade de miséria.




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