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CONTAGEM REGRESSIVA 8 DE MARÇO - FALTAM 13 DIAS

A fetichização da mulher “moreninha”

Faltam 13 dias para o 8 de março, publicamos uma crônica de uma jovem negra sobre a fetichização e o racismo que sofrem as milhares de mulheres negras no Brasil.

quinta-feira 23 de fevereiro| Edição do dia

Eu estava sentada no ponto de ônibus no meu bairro, em Betim, esperava o ônibus pra chegar ao metrô, encontrar meus companheiros, e ir pra plenária estadual da Faísca, em Contagem. Depois de quase duas horas de espera, sozinha num lugar deserto, me aparece um homem, aparentemente bêbado – ou louco -, negro de pele clara, da minha cor. Eu já esperava por aquilo, tava demorando demais.

“E você aí hein? Fazendo o quê? Vai pra BH? Vai não, sô, fica aí, nós tamo fazendo um churrasco na casa ali encima ó! Eu gosto de mulher... Cê tá elegante hein? Mas e esse cabelo aí? (risos) Tá engraçado! (gargalhadas) Horroroso! (crise de riso) Eu gosto é de mulher, mas as mulher não dão papo, ué. Até agora não me respondeu, olha aí! Eu não gosto de homem não, gosto é de mulher! Mas mulher branca, preta não. Mas você pode. Eu faço estrago. Cê é da minha cor, olha aqui, olha aqui. Esse cabelinho... (risos) Mas você tá muito elegante. Vai onde? Fica aí!”

Eu estava conversando por whats app com um companheiro que estava indo à plenária. Mandei um áudio falando bem baixo que estava quase desistindo de ir e tinha um cara muito estranho ali comigo. Pra quê... Ele ouviu e revidou:
“ESTRANHO? Eu corto cabelo há não sei quantos anos ali naquele salão, olha ali, olha ali. E para de me ignorar hein. Eu não gosto de homem, gosto é de mulher! Eles ficam falando que eu gosto de homem mas eu gosto de mulher. Vamo lá pra casa... Tá vendo? As mulher não me dão bola... Mas eu gosto é de mulher! Fazia estrago viu. Tenho um facão ali no salão. Para de me ignorar. Se esses cara vier falar comigo eu não tô nem aí não. Tenho um facão ali no salão ali ó. Vou lá buscar”

Obviamente, a essa hora eu não quis arriscar esperar que o ônibus chegasse e me tirasse dali. Levantei e saí enquanto telefonava pra contar que tinha desistido de ir à plenária e para estar ao telefone com alguém caso algo acontecesse.

Eu ainda não digeri. E não pelo facão. Lembrei de uma outra situação parecida, mas eu ainda tinha cabelos longos e cacheados, o homem, morador de rua, também negro, falava que só respeita a mãe dele que é uma santa, as outras são todas putas. Ontem um amigo perguntou como eu estava me sentindo com o cabelo novo. Ótima, recebendo mais elogios e menos cantadas. Mas isso não é de tudo bom, né? Me faz refletir na realidade das pessoas negras, principalmente mulheres.

Demorei muito pra – e ainda estou no processo de – me descobrir e aceitar NEGRA e não algum eufemismo “equivalente”. Estava hoje de manhã me sentindo culpada por desfiar meu cabelo todo pra que ele fique black e eu me sinta “mais negra”. Mas não! As pessoas de cabelos lisos não desembaraçam seus fios? Por que é que nós temos que molhar nossos cabelos, desembaraçar, e esperar que eles sequem cacheadinhos?

Eu sempre amei meus cachos, mas também amo meu crespo, que só agora assumo, sob mais elogios encorajadores do que “até que tá bonitinho”. Eu tô entendendo agora e sentindo na pele o porquê do nome black power. É que é poder mesmo que a gente emana desse jeito. Isso aqui é minha juba e eu não precisei de nenhum superproduto do mercado pra que ele ficasse assim, eu só penteei - pro espanto daqueles que falam pra gente “vai pentear esse cabelo”. Mas também entendi que as negras que optaram (os motivos dariam um outro texto) por não assumir o black, ou que simplesmente não têm um cabelo crespo (vale lembrar que nem todo negro tem cabelo crespo ou cacheado) continuam sendo fetichizadas e por motivos ainda piores do que “ser mulher”.

O que se passa na minha cabeça toda vez que passo pelos mesmos lugares que passava antes de usar o black e não ouço um assovio ou uma cantada qualquer é um filme dramático ou uma novela Mexicana. Eu não sou mais “pro bico deles”, eu não sou mais uma preta disfarçada. Vejo como se agora eu tivesse entrado pro time das mulheres brancas que também são assediadas, mas costumam ser as preferidas. São tidas como “carne de qualidade”. Uma mulher branca parece um artigo de luxo e não é qualquer homem que tem cacife pra “consumir” uma, e isso é péssimo pras mulheres brancas, tratadas como mercadoria nos clipes de ostentação em meio a carros e correntes de ouro.

Mas todo mundo quer consumir, e é pra isso que o capitalismo criou os genéricos, os pirateados e sim, a pseudo-mulher-branca, vulgo “moreninha”. Falo com propriedade porque era assim que me identificava (e criei essa identidade vivendo na sociedade capitalista) há pouco tempo atrás: parda, moreninha ou mulata, já que eles gostam de mulher branca, preta não, como ouvi hoje. A moreninha está por aí, quase a carne mais barata do mercado, correndo desesperadamente atrás dos padrões pra ser bonita, respeitada, desejada, encontrar um emprego, evitar as piadas racistas. E o homem excluído pelo capitalismo também está aí, correndo atrás “do que sobrou”.

É por isso que, e cada vez mais, eu tenho convicção de que combater as opressões machistas e racistas sem combater o capitalismo só vai eleger novos escravos. A ideia latente do “ter para ser”, do empoderamento através do consumo, do combate aos homens com a fachada de combate ao machismo nos coloca em um novo jogo que não questiona as amarras culturais que fazem os homens acreditarem que as mulheres são compráveis, os homens pobres acreditarem que não são dignos e que as mulheres negras devem tentar ser brancas para que eles tenham a quem “consumir”, e as mulheres negras acreditarem que não são dignas e devem aceitar as opressões que sofrem enquanto tentam atingir o nefasto, caro e inalcançável padrão de beleza.

Eu não tenho raiva desses homens, embora reze pra não os encontrar em rua nenhuma, cheia ou vazia. Eu tenho raiva dos capitalistas que criam e vendem padrões, esculpidos como os Eidos de Platão (aquelas figuras perfeitas que, segundo ele, todo mundo deseja ser), se apropriam das lutas e criam produtos para que continuem a lucrar enquanto nos escravizamos para enriquecê-los. Tenho raiva daqueles que assistem sentados às guerras que travamos para existir e nos fantasiam de “homens lobos dos homens”.




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