Opinião

DÍVIDA PÚBLICA

"A esquerda precisa acordar para a dívida pública", entrevista com M. Lúcia Fattorelli

Por que a dívida pública, que compromete o Brasil, deveria ser uma pauta central da esquerda? Entrevista com M. Lúcia Fattorelli

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 11 de outubro| Edição do dia

[Entrevista em 15/9/17]

ED – Como você acha que a esquerda deveria encarar a questão da dívida pública? Como forjar uma esquerda que incorpore essa bandeira no combate?

MLF – Diante de tudo que tem acontecido no país, se as pessoas não acordarem para o que significa a chamada dívida pública, a situação vai continuar se agravando. Todas as grandes medidas que têm sido aprovadas, a exemplo da emenda 95 que congela todos os investimentos em todas as áreas por 20 anos [ela só estabelece teto para as despesas primárias; ela deixa de fora o gasto com a dívida], a exemplo da reforma da previdência [nós já vimos que os argumentos usados pelo governo são insustentáveis; o que está por trás dela é cortar benefícios para levar mais recursos para a dívida], a exemplo da emenda 93 que aumentou a DRU [Desvinculação das Receitas da União] para 30%, tudo isso para que? Para tirar recursos da Seguridade Social e outros recursos vinculados para pagar a dívida. A lei complementar 159 que estabeleceu essa moratória de 3 anos para os estados, em troca de entrega de patrimônio, arrocho para todo o serviço público dos estados, impedimento de investimento, aprovação de teto nos estados, reforma da previdência nos estados, tudo para quê? Por causa da dívida. Em troca de uma moratória que não é de graça, é onerosíssima. Esse pacote de privatizações, que inclui a Eletrobrás, Casa da Moeda e todas as outras [57 empresas, aeroportos etc] para quê? Para arrecadar 44 milhões, para pagar a dívida!

Então ou quem se diz de esquerda e defende de fato direitos humanos, direitos sociais e desenvolvimento sócio-econômico ou encara o problema da dívida ou continua fazendo de conta que é esquerda, só fazendo discurso e reproduzindo o mesmo modelo, que privilegia o capital financeiro. Tem que acordar. Ou vai continuar fazendo mais do mesmo.

Veja aqui: Por que a dívida pública é uma fraude contra os trabalhadores e não deve ser paga

ED – Como popularizar o debate da dívida pública?

MLF - O importante são eventos como este aqui que ocorre hoje, dia 15 de setembro em Brasília, com os jornalistas das entidades, da sociedade civil. É conhecer o assunto: se nós não conhecem conhecermos o assunto, nós vamos passar batido. A grande mídia não vai falar nisso, ela é financiada pelo setor financeiro, não existe praticamente bibliografia nenhuma abordando o tema da dívida de uma forma transparente. A maioria é publicação técnica que reproduz o entendimento do mercado financeiro que usa a dívida como veículo do roubo.
Tem que haver debate público e o papel dos jornalistas que estão em entidades independentes, que não são submetidos a um conjunto de editores que vão vetar suas matérias, o papel desses jornalistas é imprescindível para sairmos dessa armadilha em que nos encontramos. A sociedade tem que conhecer. Então a Auditoria Cidadã da Dívida procura fazer esse papel. Diariamente nós publicamos posts na página da Auditoria no facebook. Produzimos artigos, como por exemplo, o nosso “O que é que provocou a crise atual”? Tivemos alguma guerra, alguma praga, alguma quebra de safra? Não. A crise foi provocada pela política econômica aplicada no Brasil, que privilegia o setor financeiro.

ED – E sobre o petismo e a dívida pública?

MLF –Eu creio que depois de tudo o que aconteceu com o PT é preciso aprender a lição. Não era para estarmos nesse patamar. Infelizmente agora temos que aprender com os erros. Senão vamos continuar repetindo. É preciso enfrentar essa pauta.

[Confira vídeo de uma outra entrevista concedida a dois jornalistas, incluindo o Esquerda Diário]:

Veja também: Em 2022, a dívida pública brasileira chegará a 100% do PIB, segundo FMI




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