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EDITORIAL NACIONAL

A esquerda deve se unir na luta de classes, não com golpistas e patrões

A extrema direita e a direita desse regime político podre ensaiam pactos reacionários que impõe recuos a Bolsonaro, mas não nos ataques aos trabalhadores e negros, que seguem morrendo com a pandemia, perdendo direitos e morrendo pelas balas da polícia. Enquanto as direções burocráticas do movimento de massas seguem apostando nas vias institucionais e aliança com inimigos de classe, trabalhadores começam a entrar em cena, como com a paralisação dos entregadores de app de 1 de julho, além de outros setores mobilizados como metroviários. São os trabalhadores entrando em cena depois dos fenômenos anti-racista e anti-fascista, novos ares alimentados pelo levante negro nos EUA. A esquerda deveria romper com essa perspectiva de conciliação e se unir na luta de classes contra os ataques em curso e para derrubar Bolsonaro, Mourão e esse regime podre.

quarta-feira 1º de julho| Edição do dia

O levante negro nos EUA, com apoio massivo inclusive da população branca, tem um impacto profundo que transcende a conjuntura imediata e a luta que se desenvolve agora. Todo o mundo foi impactado pelo levante negro nos EUA que tem amplo apoio da população, e o Brasil especialmente. Em primeiro lugar, pelo vinculo que Bolsonaro deu ao seu destino com Trump, que foi especialmente golpeado por essa crise e tem uma dificuldade muito maior para vencer as eleições de 3 de novembro. E do ponto de vista das massas, a luta anti racista ganha peso mundial e em especial no Brasil, país com a maior população negra fora da África.

A tendência de revolta social vai ganhando peso no mundo na medida em que as massas não suportam mais a combinação de crise econômica, sanitária e social. Essa revolta ainda é contida pela enorme quantidade de ajudas estatais, que no Brasil chegou a cerca de 60 milhões de pessoas por hora, o que Bolsonaro aproveita para fazer uma odiável demagogia, como se fosse uma grande concessão algo que não chega ao mínimo necessário. Mas as mobilizações vão se ampliando.

Veja também: Siga a mobilização dos entregadores no breque internacional dos apps

Estamos no auge da pandemia no Brasil, com dezenas de milhares de mortos. Esse genocídio é fruto da forma elitista e racista de encarar a crise sanitária e econômica, em primeiro lugar de Bolsonaro, mas também dos opositores que fazem discurso “racional” mas não tomam qualquer medida séria, nem mesmo o mínimo de garantir testes massivos e condições financeiras para o “fique em casa”.

Todos os governantes e empresários, vendidos ao imperialismo e banqueiros, são responsáveis pelo Brasil chegar à essa crise com 31 milhões sem saneamento básico, cerca de 13 milhões vivendo em favelas, 6 milhões sem banheiro em casa, 12 milhões de desempregados, 30 milhões subempregados, 40 milhões em trabalhos informais e a saúde pública destruída. Essa massa que não tem acesso a praticamente nenhum direito, em sua maioria negras e negros, como sempre, são os que mais sentem os impactos das crises econômicas, também são as maiores vítimas do covid, basta ver os dados de quem morre, em sua maioria negros, trabalhadores e pobres.

E quem tinha direitos está também sendo atacado em meio à pandemia, como parte de descarregar a crise nas nossas costas. Como foram as MP 936 e 927 e outras medidas de precarização do trabalho e abrindo espaço pra demissões em massa. Frente ao absurdo do país não ter saneamento básico, liberam para a ampla privatização da água e saneamento, e anunciam novas. E nestes ataques estão todos juntos, Bolsonaro e a enorme maioria dos que se colocam como oposicionistas, mas que não vão além de discursos pra se localizar nas eleições.

Enquanto nos atacam, tentam nos fazer acreditar que o que está em jogo no Brasil é meramente uma disputa entre fascistas e “democratas”, tentando apagar as distinções de classe, de raça e ideológicas entre todos que se dizem contra Bolsonaro. Cada vez mais aparecem “democratas” que foram responsáveis pelo golpe institucional, pela prisão arbitrária do Lula, por apoiar as mobilizações reacionárias da classe média golpista, pelos massacres ao povo negros nas favelas e que aprovaram a reforma da previdência, trabalhista e uma enxurrada de ataques que estão arrancando direitos conquistados em décadas de luta. O STF com seus processos contra a extrema direita, os tucanos organizando frente por “Direitos Já” e por uma “Frente Ampla pela Democracia” com Rodrigo Maia, FHC, Luciano Huck. Até o Temer e famigerados do governo Bolsonaro vão querendo aparecer como “democratas”, como Santos Cruz, Mandetta e Sergio Moro. O que estes golpistas reacionários que vestem uma máscara de democratas querem é se apresentar novamente como direita tradicional como “alternativa” ao bolsonarismo, mas para manter intacto esse sistema podre anti-trabalhadores e anti-negros. Sempre nos oferecem um “mal menor” que é cada vez pior, como um precipício de 20 ou 1000 metros para pular.

Além dos objetivos de se localizar melhor eleitoralmente, este é mais um movimento para tentar impor uma trégua a Bolsonaro e os militares do governo. O judiciário golpista é o principal agente dessa política e não podemos ter nenhuma ilusão que daí pode vir qualquer “combate ao fascismo”. Prenderam o Queiroz e a Sara Winter para pressionar Bolsonaro, por isso liberaram a líder fascista e tiram o processo do Flavio Bolsonaro das mãos do juiz que executou a prisão de Queiroz tão rapidamente. O inquérito das “Fake News”, ao contrário de combater a enxurrada de mentiras dos bandos bolsonaristas, permite controlar o uso da internet e aumentar o controle social de conjunto. Se hoje investigam os apoiadores do presidente, certamente vão usar contra a esquerda e movimentos sociais quando for necessário.

Não podemos nos surpreender com Ciro Gomes, Marina Silva, e os que hoje compõe um bloco entre PDT, PSB, Rede e PV (e que o PCdoB está se sentindo atraído para romper de vez com sua cara de esquerda e entrar) serem protagonistas dessa política. Trata-se do caráter de classe desses partidos, que querem salvar o capitalismo e o regime e tentarem impedir o fortalecimento de alternativas pela esquerda, como Ciro Gomes nunca escondeu. Mas basta ver as votações dos ataques para ver como estão juntos, como Cid Gomes agora em defesa da privatização do saneamento e ontem grandes partes desses partidos apoiando a reforma da previdência.

As direções do movimento de massas na contramão da luta, apostando em alianças com inimigos e nas vias institucionais

O PT segue sendo o partido com maior peso de direção nas entidades do movimento de massas e, diferentemente do PCdoB que está num giro à direita descarado, tenta se apresentar pela esquerda sobretudo através de Lula, enquanto seus governadores fazem o trabalho sujo junto aos demais atores do regime. Lula fala contra as tais “Frentes Amplas”, mas somente porque considera que não os favorece eleitoralmente entrar no jogo dos tucanos, e fica fazendo discurso eleitoral para que o PT se recomponha nas próximas eleições, enquanto Haddad e outros petistas participam dessas alianças com golpistas e reacionários. É o retorno do jogo duplo petista, que agora conta até com José Dirceu e outros personagens falando de “socialismo”, mas como mero discurso eleitoral e para evitar que surjam alternativas pela esquerda de independência de classe que possam superar o PT. A maior prova disso é que nunca movem uma entidade sequer que dirigem na luta de classes concreta.

O PT e a CUT se limitaram durante toda a pandemia a fazer coro com as alas “racionais” do regime pelo “fique em casa”, o que sabemos que para uma grande massa é impossível, abrindo mais espaço em setores populares para Bolsonaro entrar nos setores desesperados pela crise com sua odiável demagogia. Mas sequer chamaram qualquer medida de luta para garantir condições de ficar em casa, nem nos locais de trabalho que estão tendo que funcionar sem condições de higiene, e aceitaram todos os acordos nos sindicatos que dirigem de redução de direitos e demissões em massa como na LATAM, sem chamar uma luta séria sequer.

Mas estas burocracias privilegiadas não estão sofrendo nem com a fome, nem com o desemprego (não trabalham há muitos anos), nem com as balas da polícia, podem fazer suas quarentenas tranquilas e até escandalosamente fechar os sindicatos “por segurança sanitária” em categorias que estão trabalhando.

A estratégia dessas direções é apostar nas negociatas com golpistas, reacionários, empresários e nas vias institucionais. Enquanto nosso povo sofre as consequências dos ataques, eles calculam que assim vão poder triunfar nas próximas eleições, se negando inclusive a impulsionar o mínimo que seria um movimento para derrubar Bolsonaro, apesar que de palavra digam que é necessário isso. Absolutamente nunca apostam na mobilização dos trabalhadores e tem medo de que não a possam controlar.

A luta anti-racista, anti-fascista e dos trabalhadores vai abrindo caminho apesar das direções

Mas nada vai impedir que no Brasil também se expresse os novos ares mundiais de levante dos setores mais explorados e oprimidos. O povo trabalhador e pobre sabe que o direito a não morrer de covid, de fome ou das balas da polícia só pode ser arrancado pela luta. Sabe que é com a luta nas ruas e com a classe trabalhadora utilizando seus métodos que podemos superar essas burocracias e nos defender contra os ataques dos governantes e empresários.

Já estão começando a se impor mobilizações, de baixo pra cima. Primeiro foram os atos anti-fascistas e anti-rascistas. Agora começa a se mover a classe trabalhadora com seus métodos. Não pela via de qualquer iniciativa das burocracias sindicais traidoras e pró patronais, mas pela via de entregadores de app de base que se organizaram via redes sociais e paralisam no dia 1 de julho. Estes que são os setores mais precarizados da classe trabalhadora, em sua maioria negros, linha de frente no combate à pandemia, agora assumem a linha de frente da luta por direitos, como em todo o mundo.

Nós do Esquerda Diário, dedicamos o máximo de esforços ao #brequedosapp não numa solidariedade passiva ou somente com “lives”, mas ativa junto aos entregadores, pela base, e colaboramos com a organização de uma reunião internacional com entregadores da Argentina, Chile, México, Costa Rica e outros países para articular uma paralisação internacional para o 1 de julho, o que se concretizou com a paralisação de entregadores da Argentina e mobilizações em outros países.

Em outros setores do movimento operário também começam as mobilizações. Na saúde estão ocorrendo uma série de pequenos atos em hospitais para exigir condições mínimas de trabalho. No metrô de SP os trabalhadores estão muito mobilizados contra ataques históricos que Doria está fazendo. Se organizaram fortemente para paralisar no 1 de julho, mas frente à pressão da justiça para negociação, adiaram o indicativo de greve para o dia 8. É importante seguir essa mobilização porque com este ataque, Doria quer mudar a correlação de forças com o movimento operário em São Paulo e se cacifar como um governante que é capaz de substituir um Bolsonaro em seus ataques anti-operários. Nós do MRT, como minoria no Sindicato dos Metroviários, defendemos da manutenção da greve no dia 1 de julho para unificar com entregadores e porque o Metrô e Doria estão totalmente intransigentes, o que teve apoio de 19% da categoria, mas seguimos agora juntos na luta para mostrar a força da nossa classe nesse bastião dos trabalhadores no dia 8 de julho.

É justamente com estes métodos da greve, das manifestações (tomando os devidos cuidados sanitários, claro, mas não deixando de ver que se não tomamos as ruas vamos seguir morrendo e perdendo direitos), unindo os trabalhadores mais precários como dos app e os setores tradicionais organizados da classe trabalhadora como os metroviários, é que podemos vencer.

Os mais organizados e sindicalizados podem cumprir um grande papel nessa aliança, lutando em defesa de plenos direitos para os precarizados, chamando os desempregados a lutar juntos por emprego e condições de existência digna, com um programa anticapitalista de resposta para a crise sanitária e econômica. Essa unidade de classe se desenvolvendo em uma grande Frente Única dos Trabalhadores é a única forma de responder aos ataques em curso.

Basta de um caminho de conciliação com golpistas, reacionários e empresários, a esquerda precisa se unir na luta de classes numa perspectiva anticapitalista
Todos os que se colocam como esquerda socialista deveriam apostar tudo nessa perspectiva de impulsionar as lutas dos trabalhadores, se unindo para cercar de solidariedade, ampliar e coordenar essas lutas e fazermos juntos uma enorme exigência à que as burocracias sindicais rompam com sua paralisia e convoquem grandes mobilizações com um programa dos trabalhadores de saída para a crise, no sentido de uma Frente Única dos trabalhadores. Esse é o chamado que nós do Esquerda Diário e do MRT seguiremos insistindo, partindo do ponto de apoio deste 1 de julho como um primeiro passo de um plano de lutas sério e combativo em defesa dos nossos direitos e contra o conjunto dos empresários e todas as alas e instituições desse regime político que só nos atacam.

A esquerda deveria se inspirar na luta nos EUA, onde entra em cena tanto as manifestações de massa como o movimento operário na luta contra o racismo. Onde as massas estão questionando profundamente a polícia, o racismo estrutural e o autoritarismo estatal, o que deveria levar a esquerda brasileira a romper definitivamente com sua adaptação à polícia como debatemos neste artigo de André Barbieri.

Infelizmente não é esse sentido que setores da esquerda vem apontando. No caso do PSOL, Boulos, Marcelo Freixo e toda uma ala do partido como a chamada “Primavera”, estão divididos entre seguir a linha do PT ou a do PCdoB, que são duas formas de sustentar o regime golpista e não combater os ataques. Dedicam muita energia para unir com os “golpistas democratas”, mas não para unir a classe trabalhadora e os movimentos sociais. Nas eleições, Marcelo Freixo chegou a rifar sua candidatura porque só aceita se for em aliança com partidos burgueses, a mesma política defendida por Áurea Carolina em MG e outras alas do PSOL.
Mesmo o MES, corrente de Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e Luciana Genro, da tradição trotskista, lamentavelmente está fazendo parte dessas movimentações de “Frente Ampla”. Chamamos o MES a romper com essa política que ultrapassa qualquer princípio de independência de classe.

Chamamos o Bloco de Esquerda Radical do PSOL, o PSTU e todos os setores que estão contra essas supostas “Frentes Amplas”, a nos unirmos numa coordenação para atuarmos em comum na luta de classes. Numa atuação em comum como essa, deveríamos seguir debatendo entre nós o programa e estratégia pela qual devemos batalhar.

Os stalinistas, como do PCB e da UP, por trás de um discurso supostamente radical, seguem as orientações do “impeachment popular”, que apoiam junto a partidos burgueses. A velha tradição nefasta do stalinismo de aliança com setores da burguesia é repetida como farsa junto àqueles que são responsáveis por todas as transformações autoritárias do regime político. Como se não bastasse, Jones Manoel, referência do PCB, convida toda a esquerda a “construir alas” dentro da polícia, enquanto os EUA mostra o caminho do combate frontal às forças repressivas do Estado em defesa das vidas negras. Uma vergonha.

Um dos debates que consideramos crucial na esquerda é que programa levantar para a crise política. Qual é o caminho para derrotar Bolsonaro? Como avançar para que a luta pelo Fora Bolsonaro não leve a uma militarização ainda maior do regime, com um governo diretamente do Mourão. Consideramos que todos os partidos que se colocam no campo à esquerda do PT e que se referenciam no socialismo, deveriam se negar a seguir o caminho dos partidos do regime de sempre canalizar a saída de qualquer crise por dentro das instituições capitalistas, como termina sendo as propostas de renúncia, impeachment ou eleições gerais, cada uma de sua forma. Mesmo com correntes que temos mais acordos, e que até levantam não somente Fora Bolsonaro, mas também Mourão, terminam se adaptando ao regime quando assinam em comum um pedido de impeachment, como foi o caso junto com o PT e PCdoB que todas as legendas à esquerda (PSOL, PSTU e PCO, assim como as correntes stalinistas que mencionamos), mesmo que tendo políticas e tradições distintas, acabaram assinando. Consideramos isso um erro profundo: toda a esquerda socialista deveria se unir ao redor de um programa que seja para mudar as regras do jogo, e não somente os jogadores e muito menos para abrir espaço para o Mourão. A esquerda não pode aceitar um programa que mantém todos pilares reacionários do regime golpista como o judiciário, o parlamento e militares.

Precisamos nos unir para impulsionar a luta nas ruas, mas com uma perspectiva que não se adapte a esse regime podre nem por um programa que o termine salvando, como o impeachment ou eleições gerais, o que só pode ser uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana, que enfrente os problemas estruturais do país como a ruptura com o imperialismo, a abolição do latifúndio e a disposição da terra a todos os que nela trabalham, o combate ao racismo e o ataque a todos os dispositivos do Estado que violam os direitos sociais e econômicos dos trabalhadores.

Essa luta está ligada à batalha pelo desenvolvimento de organismos de auto-organização que possam abrir espaço para um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo e a construção do socialismo.

Uma política como essa, de independência de classe, ao contrário de “Frentes Amplas” com burgueses ou com partidos de conciliação de classes como o PT e PCdoB, deveria dar lugar a uma verdadeira Frente Classista e Socialista, com o PSOL e o PSTU mudando sua política e se unindo para colocar de pé um polo de independência de classe. Este seria um passo importante no sentido de começar a construir no Brasil um exemplo avançado como é a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores na Argentina.




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