Sociedade

A discórdia entre Bolsonaro e os militares pode começar com a reforma da previdência?

As informações desencontradas e as idas e vindas no discurso de como fazer a reforma da previdência, que pode ser votada ainda esse ano, são o indicio das tensões que já ocorrem no governo em torno da formação da equipe de transição e dos ministérios.

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 31 de outubro| Edição do dia

Bolsonaro tem dado informações desencontradas sobre o que fazer com a reforma da previdência de Temer, já disse que não dá pra colocar remendo novo em calça velha, agora afirma que tem que aprovar o que for possível, ainda ressaltando que essa não é a sua reforma – que será ainda pior. O seu posto Ipiranga, declara que sempre concordou com a reforma de Temer e quer aprova-la o mais rápido para depois de se encontrar com Bolsonaro desmentir e dizer que o momento de aprova-la é uma decisão política.

A cúpula militar também se movimenta. O chamado grupo de Brasília, grupo de trabalho dirigido pelos generais, já deixou vazar para a imprensa via estadão os 25 nomes que pretende indicar para a equipe de transição com 50 integrantes. Ao mesmo tempo, o general Heleno, que já fala como ministro da defesa, declarou em entrevista que a aposentadoria dos militares e policiais tem que continuar a parte, como está a proposta do governo Temer que deixa os militares de fora. Também aproveitou para colocar panos quentes no discurso belicoso contra a Venezuela dos filhos de Bolsonaro, e defendeu a necessidade de espalhar os imigrantes pelo território nacional.

O governo Bolsonaro não terá nenhum dia de trégua a partir de agora. Enquanto é pressionado para tomar uma decisão rápida sobre a reforma da previdência abraçando a impopular herança de Temer, começa a declarar como será a formatação do seu ministério, anunciando as fusões do ministério da fazenda com o de planejamento e o do meio ambiente com o de agricultura. Não será fácil a disputa pelo loteamento dos ministérios, para satisfazer os militares, suas promessas de colocar técnicos e atender a voraz base política do centrão – com a qual Bolsonaro governara apesar de toda demagogia anti-corrupção. E ainda veremos, mas pode ser mais difícil a negociação com as bancadas da bala, rural e evangélica e com parlamentares pulverizados do que uma negociação direta com a cúpula dos partidos.

A posição dos militares, que durante a campanha parecia apontar para a moderação na pressa com a reforma da previdência do governo Temer, no que se alinha a vontade de Paulo Guedes, mas parece encontrar alguma hesitação no núcleo politico governo, em Bolsonaro e Onyz Lorenzoni. Algumas dificuldades teriam que ser superadas, como encerrar a intervenção no Rio de Janeiro e apaziguar a base parlamentar – o que exigiria uma primeira rodada de promessas de cargos nos ministérios e estatais.

UM cenário pouco favorável para o governo Bolsonaro pode se apresentar nas próximas semanas se avança na aplicação da reforma da previdência de Temer, o que parece altamente improvável, ainda que a convergência que se mostrou entre Paulo Guedes e os generais neste tema pode mudar esse jogo de probabilidades. Estes teriam o beneficio de garantir uma reforma da previdência que os deixa de fora sem maiores discussões, enquanto Paulo Guedes estaria dando um aceno fortíssimo ao mercado financeiro. O problema é que essa reforma é rechaçada por uma ampla maioria da população, inclusive dos votantes de Bolsonaro, que poderia iniciar o governo em 1 de janeiro já com uma corrosão enorme da sua popularidade. Estaria ainda o risco da reforma não ser aprovada no Congresso e o custo ser pago em vão.

Não podemos assistir passivos enquanto os banqueiros, os generais e os políticos mais reacionários discutem a melhor forma de destruir a aposentadoria e nos fazer trabalhar até morrer. É urgente que a CUT e a CTB e de mais centrais sindicais iniciem imediatamente a preparação de um plano de lutas. E preciso organizar já reuniões por local de trabalho alertando toda a classe trabalhadora do perigo de que um grande ataque de Temer seja aprovado com o apoio de Bolsonaro no apagar das luzes do governo atual.




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