Internacional

Crise Política na Bolívia

A direita boliviana radicaliza suas ações e pede a renúncia de Evo Morales

A massiva reunião de Santa Cruz, com seu presidente civil à frente, Luis Fernando Camacho, anunciou que como Evo Morales não cumpriu o prazo de 48 horas para renunciar à presidência, radicalizarão suas medidas com paralisação de instituições públicas e fronteiras. Manifestou ter o apoio de importantes setores das Forças Armadas. Amanhã chegará a La Paz com uma carta de renúncia irrevogável para que seja assinada por Evo Morales

terça-feira 5 de novembro| Edição do dia

A reunião desta segunda-feira (4 de novembro), nomeada “Reunião da unidade”, contou com a participação dos presidentes dos comitês civis dos estados de Potosí, Beni, Tarija y Pando. A reunião foi iniciada com um “pai nosso” por um sacerdote e logo foram entoados os hinos nacional e estadual. Neste espírito político e religioso Camacho dizia reiteradamente de “Deus voltará ao Palácio”.

Camacho fez a leitura de uma carta de renúncia na reunião, em suas palavras, “escrita pelo povo” para que seja assinada por Evo Morales. Esta carta será entregue hoje (05) em La Paz por representantes dos comitês civis e convocaram os “cidadãos a acompanhar uma grande mobilização para levar a carta ao Palácio do Governo e não sairmos de lá até que assine”.

Entre as medidas com as quais será radicalizada a exigência de renúncia de Evo Morales, a reunião definiu que a partir das 0 horas desta terça-feira, serão paralisadas instituições públicas para seu “resguardo” sinalizando que “se nós paramos, que eles também parem”. Da mesma forma definiram a paralisação de fronteiras. Ficam isentos destas medidas os aeroportos, hospitais, alimentação e serviços de emergência.

Nas intervenções tanto de Camacho, como do presidente do Comitê Civil de Potosí, Marco Antonio Pumari, ressaltou o programa federalista que impulsionam. Gritaram em alto e bom som: Viva Santa Cruz federal! Viva Potosí federal!

Da defesa do voto à proposta de uma Bolívia federal

A interrupção do escrutínio, no dia 20 de outubro, através do sistema de Transmissão de Resultados Preliminares (TREP) levou a que hoje, segundo uma pesquisa recentemente publicada pelo jornal Página Siete, 68% da população considera que houve fraude. O que começou como movimento com legitimidade democrática em “defesa do voto” com vigílias nos primeiros momentos pós-eleições foi se transformando rapidamente. As consignas de defesa do voto e por um segundo turno foram se transformando em “defesa da democracia” e pela “anulação do processo eleitoral” para logo defender a renúncia de Evo Morales, governo de transição, e até a reivindicação de uma Bolívia federal.

Da mesma forma, o calor dos bloqueios sustentados por uma juventude de classe média e alta, as manifestações foram adquirindo cada vez mais traços reacionários ao aflorarem manifestações racistas e homofóbicas, assim como a reivindicação expressa da “República da Bolívia” contra o chamado “Estado Plurinacional da Bolívia”. Ainda que de caráter simbólico e formal, esta disputa pelo nome tem sua importância ao buscar homogenizar e negar o caráter pluriétnico e diverso do país e portanto voltar a invisibilizar os povos indígenas. A discussão e denúncias sobre as grossas irregularidades do processo eleitoral ou o que foi qualificado como uma fraude descomunal, nestas alturas do conflito, tem um caráter de anedota ainda que seja incapaz de explicar a natureza econômica e social dos campos em disputa. A discussão de se existiu ou não fraude se transformou de uma denúncia legítima em um arranca-rabo democrático à serviço de um projeto absolutamente reacionário que encarna Camacho. Somente iludidos ou cúmplices não vêem isso e insistem na discussão da fraude.

Horas antes da reunião em Santa Cruz, movimento inusuais dos militares e da polícia foram denunciados pelas redes sociais no Aeroporto de Trompillo desta mesma cidade, assim como na Praça Murillo, centro político da cidade de La Paz. O pico de violência no país durante esta jornada aconteceu na localidade de Riberalta do estado de Beni, onde se produziram enfrentamentos entre os moradores civis desta localidade e camponeses e membros dos povos indígenas das localidades ao redor. Os enfrentamentos se prolongaram por várias horas deixando destruídos vários motorizados.

Para hoje também foi anunciada uma mobilização convocada pela corrompida burocracia da Central Operária Boliviana (COB) em apoio ao governo de Evo Morales. A nova convocatória dos civis para entregar a carta de renúncia a Evo e não se mexer até que assine poderia ser um convite ao enfrentamento.




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