Cultura

CULTURA SUFOCADA

A dificuldade para a cultura respirar no Brasil de 2018

Criminalizar pensamentos e ideias corresponde, lamentavelmente, ao clima mental dos nossos dias.

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 20 de abril| Edição do dia

O fato da cultura possuir uma capacidade dissidente, uma inegável qualidade crítica para contradizer e questionar a ideologia dominante, faz com que paladinos da ordem capitalista hostilizem no Brasil artistas, professores, jornalistas, estudantes etc. Ainda que a liberdade de expressão não esteja(por enquanto...) totalmente ameaçada, existe um bode nacional que torna a vida cultural quase irrespirável.

Para pessoas de esquerda o drama assume uma proporção quase trágica. Quem é comunista e já passou dos trinta anos ou aproxima-se dos quarenta, deve se lembrar que entre 2001 e 2008, pessoas conservadoras que circulavam pelo ambiente acadêmico e pelas redações de jornal, aproximavam-se com ar de deboche e sobrancelhas zombeteiras para dizer: - “ Mas você é marxista? Que coisa mais ultrapassada... Meu bem, a guerra fria acabou! Trotskista?! Ah, que coisa mais século XX... “. Hoje as coisas mudaram...para pior! Um conservador aproxima-se de um cara de esquerda e continua a dizer: - “ O marxismo está ultrapassado... “. A diferença no entanto é que o mesmo personagem reacionário bate com o punho na mesa, faz uso de exclamações, é tomado pelo histerismo e não será surpresa se estiver armado:

- “ Você está ultrapassado!!!. Entendeu? Cala a boca! Comunistas são psicopatas, depravados, viciados, cachaceiros, alienígenas e inimigos do Brasil! Fora daqui ! “.
Não se trata aqui de chorar pitangas: quem é comunista e milita inclusive na cultura, sabe muito bem que na luta de classes existem formas de calúnia, intimidação e marginalização. São recursos previsíveis dentro da metodologia repressiva de quem está no poder. Quem decidiu entrar em combate tem que aguentar o tranco, caso contrário que tome leite e chore na janela. Mas então por que reclamar? Não!

Trata-se de denunciar, de tentar abrir os olhos de outros trabalhadores para se discutir o obvio: desviar os trabalhadores dos seus reais interesses históricos( isto é, o socialismo), é uma tarefa odiosa que se faz também no terreno da cultura. Além dos ataques coordenados nas redes sociais, verdadeiros comboios de postagens caracterizadas por uma linguagem de baixo nível intelectual( uma característica recorrente entre aqueles que não possuem estofo para lidar com o pensamento marxista), a cultura em geral torna-se refém de práticas que distorcem a realidade: certos intelectuais que atuam nos contextos acadêmico e midiático, alguns grupos religiosos e movimentos com cheiro de sabonete caro, ocupam espaços culturais, logo de produção ideológica. Uma orquestra anticomunista reafirma no cotidiano sua hegemonia. Como disse um grande amigo, que pede para não ser citado: “ Talvez tenham sido os reacionários que leram Gramsci: eles aprenderam através do conceito de hegemonia a fazer o contrário do que queria o marxista italiano “.

Será mesmo verdade? De qualquer modo não é fácil verificar se isso realmente aconteceu ou se é mais uma piada do meu velho chapa. Todavia existe um fato: militantes de esquerda ou pessoas minimamente progressistas estão sendo alvos da fúria de campanhas intolerantes. Enquanto não puder prender todos os comunistas do país, a classe dominante que controla parte considerável da produção cultural, usará sempre uma velha estratégia: matar pessoas de fome através do desemprego, punindo, impedindo com que os trabalhadores revolucionários da cultura exerçam suas atividades, suas profissões. Pensemos no caso de um escritor. Se ele for um intelectual engajado, uma pessoa suficientemente sensível para perceber que existe fome e sofrimento, e ele decide escrever um romance de esquerda, como ele poderá ter tempo e ser pago para isso? Como escrever e ao mesmo tempo garantir o feijão e as contas pagas? Se ele tiver filhos para criar, pior ainda: a literatura será para ele uma nuvem distante.

Existem pessoas maravilhosas que possuem extraordinárias peças de teatro, romances, contos, poemas, pinturas, roteiros de cinema e canções que podem trazer uma contribuição enorme para que os trabalhadores tomem consciência de sua condição neste país. Mas para sobreviver estes mesmos artistas precisam trancar tudo na gaveta, engolir o sonho mal digerido e trabalhar em algo no qual não podem expressar livremente suas ideias revolucionárias. E como se não bastasse, essas pessoas e vários outros militantes de esquerda são obrigados a assistir a uma quantidade incrível de lixo cultural produzido sistematicamente pela grande mídia.

Diante de todo este clima de hostilidade o importante é estudar, produzir de modo independente e debater estratégias para agirmos culturalmente dentro da luta de classes. De qualquer maneira, não será um punhado de gente raivosa e intelectualmente duvidosa que poderá parar o nosso trabalho.




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