Gênero e sexualidade

OPINIÃO

A derrota do feminismo liberal e a Era Trump

As restrições do novo governo dos EUA ao aborto e a promessa de novos ataques cultivam a pergunta: como defender os direitos das mulheres na Era Trump?

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

terça-feira 7 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Uma das primeiras ordens executivas de Donald Trump proíbe destinar fundo federais dos Estados Unidos a organizações que pratiquem ou assessorem sobre o aborto no exterior. Isto provocou um repúdio generalizado na EE.UU. e no mundo inteiro.

O governo holandês propôs formar um fundo internacional para financiar programas nos chamados países em vias de desenvolvimento para apoiar o direito ao aborto e a educação sexual. A medida pode ser paliativa e temporária. Sem embargo, não é uma solução ao problema de fundo: os direitos conquistados podem ser arrebatados em uma canetada se não são defendidos com a mobilização e a luta constante para garantir que todas as pessoas possam gozar deles e não apenas pequenos setores.

Os direitos das mulheres nos EUA estão em perigo. Porque a administração Trump já ordenou o desfinanciamento das organizações que apoiam o direito das mulheres decidirem, porque seu vicepresidente encabeçou a marcha antiaborto e porque a maioria republicana na câmara baixa votou contra financiar organizações que incluam o aborto entre suas práticas de saúde reprodutiva. Porém, não termina aqui.

Os direitos das mulheres estão em perigo porque os democratas, que governaram o país durante oito anos com um presidente autodenominado feminista como Obama, não fizeram nada para frear a ofensiva da direita em vários estados, que votaram leis que restringem o direito ao aborto e afetam principalmente pobres, trabalhadoras, negras e latinas que dependem dos programas de saúde estatal.
Trump também se comprometeu a nomear juízes pró-vida para a Corte Suprema.

Isto coloca a possibilidade de um retrocesso histórico da falha Roe v. Wade que deveriam superar os setores da direita conservadora e cristã para culminar o que Ronald Reagan chamou de "guerra dos cem anos" contra o aborto. Somente a possibilidade de que isto suceda é grande parte responsabilidade do partido democrata e o movimento feminista.

A armadilha neoliberal

A situação atual é resultado da estratégia de pressão parlamentar e os compromissos da maioria do movimento feminista em EE.UU., que trocou as ruas pelas oficinas governamentais e a crítica a sociedade patriarcal pelas "agendas inclusivas". Assim a inclusão de mulheres, de LGBTs e as minorias étnicas se transformou na cobertura de uma democracia que negava direitos básicos a maioria pobre e trabalhadora da população, em que contraditoriamente mulheres, LGBTs, afro americanos e latinos estão sub-representados.

A armadilha mortal da inclusão permitiu, por exemplo, que G.W. Bush. utilizou os direitos das mulheres como uma justificativa para invadir Afeganistão em 2001. Nesta e em outras causas neoliberais, o feminismo teve um papel satisfatório, encabeçado em uma "amizade perigosa" com a democracia capitalista, como assinalou Nancy Fraser em 2013 quando alertava sobre "como certo feminismo se convertia em cria do capitalismo".

A brecha entre as causas do "feminismo neoliberal" e as condições de vida da maioria das mulheres explodiu com a crise capitalista iniciada em 2007. Para esse momento, como já se assinalava em 2009 a jornalista Nina Power, "o argumento a favor de que as mulheres, minorias étnicas e os homossexuais ocupem ’posições hierárquicas’ tem sido acabado pela direita". Ainda que a chegada de Obama ao poder parecia marcar uma era de troca, a inclusão sobretudo das mulheres nos cargos de alto escalão já haviam começado a questionar os benefícios da "igualdade" sem questionar a democracia imperialista.

Porém, se houve um momento que evidenciou a derrota desse "neoliberalismo progessista", voltando a tomar emprestadas as palavras de Fraser, foi a derrota de Hillary Clinton. Sua apresentação como candidata "natural" do feminismo não fez mais que desvendar seu fracasso em somar a maioria das mulheres a uma "epopeia" que não sintetizaram como suas. E o que é pior, graças aos compromissos desse feminismo, que abraça o individualismo e a meritocracia disfarçando-os de "livre eleição", o rechaço a Clinton e o que significava arrocho a uma grande porção de mulheres brancas aos braços do "feminismo empreendedor" (e conservador) de Ivanka Trump, a minimizar o perfil misógino de seu pai e apoia-lo nas urnas.

E agora, o que?

É inegável que para as mulheres, como para muitos setores, a chegada de Trump ao poder somente empiora as perspectivas da restrição gradual de seus direitos nos últimos anos. Porém, longe do ceticismo que amarga a liberais e apologistas do partido democrata, uma das primeiras respostas se deu em uma massiva marcha de mulheres nas principais cidades do país, com múltiplos limites e desafios porém que também marca a chegada da mobilização das mulheres em todo mundo ao centro do capitalismo imperialista.

Em países diferentes como Argentina e Polônia, as mulheres saem as ruas espontaneamente e respondem aos gestos mais brutais do capitalismo, em forma de violência patriarcal ou reação conservadora contra os direitos reprodutivos. Também, revitaliza a mobilização por igualdade salarial e desmarcara as desigualdades que mantém o capitalismo incluso em seus paraísos igualitários como a Islândia.

Em muitos países, a mobilização das mulheres é a via de uma expressão de um descontentamento mais amplo, da resistência aos ataques generalizados dos empresários e seus governos as condições de vida da classe trabalhadora e os setores empobrecidos, em que as mulheres são maioria. A mesma realidade que mostra a derrota a que levou o "feminismo liberal" é a que faz cada vez mais evidentes os laços que levam a luta contra a opressão patriarcal e a luta contra o capitalismo. Por isso, as causas que aparecem em princípio como "femininas" mobilizam e se ganham simpatia de grande parte da população que sofre as misérias do capitalismo.

O ano inaugurado com a promessa do furacão Trump coincide com o centenário da revolução que fez da emancipação das mulheres uma agenda urgente, concedendo-lhes sem condições liberdades elementais, muitas impensadas para as massa femininas da época, como o direito ao divórcio e ao aborto. Em somente alguns meses, a revolução russa mostrou a potência transformadora da revolução em contraste com o lento e condicional avanço das democracias capitalistas que demorariam cem anos para alcançar algumas destas medidas. Este aniversário é também a oportunidade de recuperar seu legado e uni-lo a perspectiva de um movimento de mulheres que abrace sua luta com as trabalhadoras e trabalhadores. Nossa luta pela emancipação bate ao ritmo impaciente dessa maioria de mulheres que aspira não somente a libertar-se da submissão e da opressão pelo seu gênero senão a libertar a humanidade de toda exploração e opressão.




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