Teoria

DEBATE TEÓRICO

A crítica de Hannah Arendt a Marx: a questão do trabalho

Gilson Dantas

Brasília

sábado 9 de maio de 2015| Edição do dia

Na sua obra A condição humana a autora de As origens do totalitarismo desenvolve uma peculiar concepção sobre o trabalho e dirige fortes críticas a Marx. Aquelas ideias de Arendt por vezes têm sido reafirmadas como algo que permitiria enquadrar Marx na galeria dos glorificadores do trabalho pelo trabalho, do produtivismo pelo produtivismo. O grande problema na empreitada de H Arendt é sua leitura bem particular de Marx e, em especial, da categoria trabalho em Marx. Na própria Introdução a A condição humana, escrito em 1958 (portanto depois de As origens), H. Arendt já delineia um painel da sociedade moderna que, como se pode ver no extrato a seguir, essencialmente não coincide com o de Marx. Naquelas páginas, H. Arendt destaca os avanços da ciência, e, especialmente, a automação, que
“dentro de algumas décadas provavelmente esvaziará as fábricas e libertará a humanidade do seu fardo mais antigo e mais natural, o fardo do trabalho e da sujeição à necessidade”. (...) “A era moderna trouxe consigo a glorificação teórica do trabalho, e resultou na transformação efetiva de toda a sociedade em uma sociedade operária. (...) A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece aquelas outras atividades superiores e mais importantes em benefício das quais valeria a pena conquistar essa liberdade.” (Arendt, 1997: 13).

Em vários lados Arendt vai tratar de situar o pensamento de Marx opondo marxismo a liberdade. Esta dimensão “liberticida” do marxismo se fundaria numa concepção estreita e reducionista da categoria trabalho, numa visão de homem como animal laborans, como animal que trabalha e que estende a visão instrumental do trabalho ao conjunto da sociedade e da cultura. Marx - sempre segundo H. Arendt - praticamente reduz o homem a um ente econômico. Para ela Marx vai referenciar-se por um homem que não difere dos animais pela razão, ou pela linguagem ou por sua condição de ser político, mas pelo .. trabalho (labor, para H. Arendt). Ela critica Marx por empobrecer a noção de trabalho, reduzindo-a a apenas uma dimensão. Arendt, como se sabe, irá, teoricamente, desdobrar a categoria trabalho em duas (trabalho e labor) e procurará demonstrar que o trabalho em Marx não passa do labor arendtiano; segundo H. Arendt, quando Marx se refere ao trabalho, ele só está considerando o trabalho mais elementar (aquele onde o trabalhador é intercambiável sem prejuízo para a produção) e mais ligado à sobrevivência imediata da espécie.

A leitura atenta de Marx mostra outro quadro, mais compreendido, por exemplo, pela definição de Ricardo Antunes:

“Sob o sistema de metabolismo social do capital, o trabalho que estrutura o capital desestrutura o ser social. O trabalho assalariado que dá sentido ao capital gera uma subjetividade inautêntica no próprio ato de trabalho. Numa forma de sociabilidade superior, o trabalho, ao reestruturar o ser social, terá desestruturado o capital. E esse mesmo trabalho autodeterminado que tornou sem sentido o capital gerará as condições sociais para o florescimento de uma subjetividade autêntica e emancipada, dando um novo sentido ao trabalho” [p. 182, grifos nossos]

Para Marx, antropologicamente, não há trabalho sem significado, não há humanização pelo trabalho sem que a ação do trabalho comporte intenção e significação social. Com a palavra T Eagleton: “O que distingue o animal humano é o fato de que ele se move em um mundo de significados; e esses significados são constitutivos de suas atividades, e não secundários a elas. As idéias são internas a nossas práticas sociais, e não meros produtos destas. A existência humana, como admite Marx em outra passagem, é uma existência propositada ou “intencional”, e essas concepções propositadas formam a gramática interna de nossa vida prática, sem a qual esta seria um mero deslocamento físico. O termo “práxis” foi utilizado com bastante frequência pela tradição marxista para apreender essa indissolubilidade da ação e da significação” (p. 73, grifo nosso).

Portanto, o trabalho em Marx é uma categoria que não tem a unidimensionalidade que H Arendt lhe atribui.

O trabalho assalariado não liberta. O trabalho, antropologicamente formou a nossa espécie, mas na sociedade capitalista o que temos é trabalho degradado, no qual o ser social se desrrealiza, o produto do trabalho aparece como alienado, estranho.

O trabalho que está em crise é o trabalho alienado. E o trabalho que Marx imagina abolido na perspectiva comunista seria o trabalho ... assalariado . É entendimento de Marx que nas suas horas livres a personalidade do trabalhador vai encontrar-se empobrecida pela alienação no trabalho, por um trabalho que se converteu num meio para resolver a sua existência, e no caso da maioria, resolver o problema bem elementar, da mera sobrevivência. Vale observar – embora talvez soe ocioso – que a crítica ao reducionismo e ao caráter forçoso do trabalho só pode ser feita por Marx porque ele parte de uma concepção não-reducionista e livre do trabalho, tudo ao contrário da leitura arendtiana de Marx. Para este, o homem no trabalho alienado, deixa de realizar a “atividade vital consciente”.

O reino da liberdade em Marx precisa contar, como condição fundamental - como argumenta ele no Livro III de O Capital - com a diminuição da jornada de trabalho mas, ao mesmo tempo, com o controle da comunidade sobre seu próprio trabalho. Separar as duas coisas equivale não apenas a fatiar o pensamento de Marx mas também a entrar no gueto de uma sociedade que tem tempo mas não vê sentido na vida (a escravidão com liberdade de que fala H. Arendt).

Marx se lança - tanto em termos do diagnóstico como de perspectiva de superação da crise contemporânea - para além dos limites de classe em que fica enredado o pensamento de Arendt. Procurando um Marx que não existe, ela termina partindo de um Marx que não passa de uma caricatura arendtiana.

O significado do trabalho em Marx jamais foi o de labor: as múltiplas dimensões, a teleologia, a amplitude do significado antropológico e ontológico do trabalho em Marx, tudo isso escapa a Arendt. Uma busca adequada – não parcializadora – do homem que labora em Marx nos levaria, na verdade, ao homem que labora mas que também engendra relações sociais, consciência e todas as dimensões da vida ativa, de toda a cultura.

No entanto, deixando de perceber as bases capitalistas da alienação é possível cair em ilusões reacionárias, por exemplo, em relação à democracia liberal americana à qual H. Arendt era simpática. O argumento de D Bensaid é claro em relação aos limites em que se debateu H Arendt: ali “onde a própria Hannah Arendt contrapõe a “vida ativa dos gregos”, trata-se, ao contrário, de conceber a superação efetiva desse modo de trabalho historicamente determinado, para o qual o desenvolvimento das forças produtivas já reúne as condições concretas” (...) “O dogma do trabalho libertador e a profecia do final do trabalho têm em comum sua unilateralidade. O primeiro só considera a dimensão antropológica do trabalho, abstraindo seu caráter historicamente determinado. O segundo só leva em consideração seu caráter concretamente alienado e alienante, abstraindo suas potencialidades criadoras”.

Referências: Antunes, Ricardo, 2000. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2ªed. São Paulo: Boitempo Editorial. Arendt, Hannah, 1997. A condição humana. 8ªed. Rio de Janeiro: Forense Universitária. (Edição revista). Bensaid, Daniel; Lowy, Michael. Trabalho e emancipação, 2000, in Marxismo, modernidade e utopia, São Paulo, Xamã, p. 84 a 100. Eagleton, Terry, 1997. Ideologia. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista: Boitempo Editorial.




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