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ESTADO ESPANHOL

A crise do governo espanhol, preso em uma espiral de negociações

A dificuldade de Mariano Rajoy, em conseguir apoio entre outros partidos para ser empossado presidente do Governo, o levou a ponderar a possibilidade de uma terceira eleição. Seria uma ameaça para pressionar uma “grande coalizão” e assim evitar governar como minoria?

Cynthia Lub

Barcelona | @LubCynthia

quarta-feira 3 de agosto de 2016| Edição do dia

Até agora, todos os líderes políticos apresentaram em seus discursos o repúdio ao que seria a terceira eleição em menos de um ano. Mesmo depois da reunião que tiveram nesta terça Rajoy, presidente em exercício do governo, com o líder socialista, Pedro Sánchez com a manutenção do “não” do PSOE, o chefe do Executivo assegurou que isso resultaria em novas eleições.

Esta é a segunda reunião que realizam após as eleições do dia 26 de junho e a primeira após incumbido o Rei Felipe VI da tarefa de tentar formar o Governo, depois de Rajoy ter sido o ganhador com 137 cadeiras. Assim, ele não possui maioria suficiente para ser eleito chefe do Executivo pelo Congresso, que conta com 350 deputados, necessitando do apoio de outros partidos.

Sem nenhum acordo para formar o governo, Rajoy afirmava em relação ao líder socialista, “Com seu ’não’ se mantém a barreira e isso nos leva às eleições”, e ratificava que para seu partido “o urgente” para Espanha é “formar governo” após sete meses em exercício.

Rajoy tentou diferentes acordos, desde uma grande coalizão junto ao PSOE ou na sua impossibilidade, que os socialistas se abstenham para facilitar o empossamento. “O acordo programático que eu ofereço é a condição prévia da necessidade de se formar o governo; o desacordo que o senhor Sánchez oferece é a condição prévia para que se repitam as eleições”. Além disso, Rajoy advertiu que uma terceira convocatória eleitoral, após a de 20 de dezembro de 2015 e a do passado 26 de junho “seria um disparate”.

Mas Sánchez repetiu essa terça que os socialistas, segundo grupo na Câmara com 85 deputados, votaram “não” a presidência de Rajoy e pediu ao candidato popular que negocie o apoio com “ a direita”, seus “aliados naturais”. Garantiu que “Nós da esquerda dizemos à direita que entrem em um acordo”; se referindo a Ciudadanos, que conta com 32 deputados, ainda que esse partido insista em que somente se absterá, o que impossibilitaria a reeleição de Rajoy.

Mesmo com o apoio de Ciudadanos, o PP somaria 169 e ainda lhe faltariam 7 para alcançar a vitória. Seria necessário o apoio dos nacionalistas vascos (PNV), com cinco deputados e os catalães (CDC), com oito.

Entretanto, a semana passada o presidente do PNV, Andoni Ortuzar, voltou a deixar claro que seu partido votará “não” a Rajoy, além disso, em palavras do político vasco, a postura de seu partido é “inflexível”. E na Catalunha, o ex presidente da Generalitat (espécie de governo autônomo da Catalunha) e novo presidente da “renovada” Convergência Democrática de Catalunha (de agora em diante Partido Democrata Catalão), Artur Mas, assegurou que “ nem a antiga CDC nem o novo PDC irão dar apoio em nenhum momento a Rajoy e ao PP”. Assim o quebra cabeça segue sem desfecho.

E aqui as dificuldades de formar governo se combinam com outras das grandes crises do Regime: a questão nacional catalã. O “processo constituinte” votado no Parlamento da Catalunha e vetado esta segunda pelo Tribunal Constitucionaldificulta qualquer pacto com o PP, PSOE e Ciudadanos, opositores a qualquer consulta sobre uma possível independência da Catalunha.

As negociações parecem uma espiral que se repete, as fotos são as mesmas: o rei, Rajoy e todos os líderes políticos. Ocorrendo as terceiras eleições, - algo inédito desde a democracia em 1977-, que não levaria a grandes mudanças em seus resultados, provocaria um maior desgaste dos partidos da “casta” política, uma crise de governabilidade e de um Regime afundado em uma crise de várias arestas.
Muitas incertezas e nenhuma certeza, além da evidência de que a crise do Regime se aprofunda: com a questão catalã, a elaboração dos pressupostos para 2017 e a aprovação de medidas exigidas a partir de Bruxelas, que quer impor um corte de 3,1% do PIB nos gastos públicos para 2017. E uma crise econômica que continua sendo despejada brutalmente sobre a classe trabalhadora e a juventude.




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