Teoria

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A Revolução Russa: sua importância para os trabalhadores brasileiros

Gilson Dantas

Brasília

sábado 12 de dezembro de 2015| Edição do dia

Nosso país sempre foi governado por uma patronal burguesa e sua casta política.

Jamais teve um governo realmente dos trabalhadores e, justamente por isso é um país que sempre foi saqueado a partir de suas elites corruptas. Por conta disso é da maior importância que nossa classe trabalhadora conheça a história política de suas lutas, tanto aqui quanto, especialmente lá fora, de outros países. Conhecer nossa história permite que fiquemos sabendo do que somos capazes, como classe, como sujeito político, e aí ganhamos segurança para nós, trabalhadores, questionarmos pra valer essa república de ricos.

E a primeira das histórias que nós não podemos deixar de conhecer é a da Revolução Russa de 1917.

Ali, na mais consciente de todas as experiências históricas, a classe trabalhadora criou seu primeiro governo e seu primeiro Estado.

Não por acaso, tanto na escola como na mídia, nós já sabemos que grande número de professores e jornalistas trabalham para que você pense que a Revolução Russa é coisa de museu, do passado, tipo guerra de Troia, enfim, alguma coisa superada e que é preciso esquecer. Por essa razão os livros de história do segundo grau nunca falam sobre o que realmente foi a Revolução Russa.

Ela é deixada lá num canto de página. E quando falam dela é para criticar, difamar.

Cada livro escolar procura desqualificar a Revolução Russa, os bolcheviques, Lenin e Trotski, e portanto, tenta defender que fazer política é para profissionais ricos e letrados da política, deputados e senadores.

Por que eles precisam fazer isso?

Ora, as universidades, a mídia e as grandes editoras são feitas pelos ricos, dominadas pela ideologia burguesa, e a Revolução Russa justamente traz lições preciosas que podem estimular a classe trabalhadora a sentir sua força histórica, seu poder político, e a possibilidade e a necessidade de uma república dos trabalhadores.

É preciso que os trabalhadores sigam pensando, sempre, que a Revolução Russa é coisa exótica, ultrapassada, perdida lá atrás no tempo. Quanto aos trabalhadores, hoje, em vez de revolução, eles devem pensar no voto de quatro em quatro anos, em remendar uma lei aqui e ali, e sempre deixar a política para aquela casta profissional que não trabalha.

No entanto, foi Revolução Russa quem inaugurou a era moderna, foi com ela que o século XX começou, e foi através dela que, pela primeira vez, de forma consciente, a classe trabalhadora, se apossou do poder de Estado para ela mesma, fazer política diretamente, governar o país. Foi a primeira vez que operários, camponeses, pobres em geral romperam com seu papel de escravos dos grandes proprietários para levantar a primeira república que não era dos ricos e sim uma democracia dos de baixo, dos que vivem do trabalho.

Só por isso, a Revolução Russa já precisa ser conhecida por todos os que somos críticos a essa democracia degradada brasileira, dos ricos e corruptos, sejam eles do PT, PMDB, do PSDB, do PSB, de qualquer partido patronal.

Ali, em 1917, em meio a um processo de levantes, de greves, movimentos populares e grandes questionamentos de massa ao governo, a população em luta derrubou um imperador [tzar] e quando veio o governo liberal-democrático, que manteve as terras e as fábricas nas mãos dos ricos, os trabalhadores continuaram com suas assembleias por região, por local de trabalho e bairro, os conselhos de trabalhadores, de camponeses, que começaram a exigir mais do governo. E a querer governar.

Queriam paz [a burguesia russa estava em guerra contra a alemã], queriam pão, terra, uma verdadeira democracia, e nas suas lutas, orientados pelo partido de Lenin e Trotski, foram aprendendo, de cada luta e passo a passo, que nenhuma conquista séria poderiam esperar do governo democrático-burguês. Progressista ou não, continuava sendo um governo e uma “democracia” dos ricos.

De fevereiro a outubro de 1917, à medida que mais trabalhadores do campo [a Rússia era um país muitíssimo mais agrário do que urbano] e operários urbanos se levantavam, eles se davam conta de que precisavam reforçar seu partido, um partido independente da burguesia, que não aceitava o “mal menor” de um governo burguês democrático e nem a direita truculenta, e foram vendo que a única saída era a de levantarem, eles mesmos, um governo dos trabalhadores. Vão conseguir isso na revolução de Outubro e baseando-se nos conselhos [ou sovietes] que se organizam no país inteiro e construindo um partido que não aceitava a falsa escolha entre governo “mal menor” e governo “mal maior”: simplesmente escolhiam construir um partido dos trabalhadores independente da patronal, de qualquer patronal.

Essa foi a qualidade da Revolução Russa.

Desde o início das greves, meses antes, os bolcheviques já vinham defendendo todo poder aos sovietes, e que estes funcionassem na mais plena democracia de massa, como uma frente de massa, aberta a todas as tendências operárias e que tais assembleias locais fossem agindo como poder. Era uma situação revolucionária, onde o país inteiro estava em luta. De um lado o governo querendo que as massas saíssem das ruas, das fábricas, das propriedades rurais ocupadas e do outro lado, os bolcheviques defendendo pacientemente que os conselhos de cada lugar desenvolvessem o exercício de duplo poder, contra as decisões antipopulares do governo. Se o conselho de trabalhadores decidisse tomar uma gráfica para ter seu próprio jornal, que o fizessem. E que os conselhos de trabalhadores funcionassem como órgão deliberativo e executivo ao mesmo tempo, disputando, ganhando autoridade popular e se preparando para ser governo nacional.

Em dado momento, com maioria nos conselhos, e diante de um congresso nacional dos sovietes, os bolcheviques planejaram a insurreição, rápida e fulminante, na qual trabalhadores e soldados transferiram o poder político de uma classe, da patronal, para outra, a dos trabalhadores do campo e da cidade. Ali mesmo eles instituem um poder único, um parlamento de trabalhadores do campo e da cidade, eleito por local de trabalho, que substitui o legislativo e o judiciário. Suas primeiras medidas são a suspensão da guerra, dissolução do exército, entrega das terras aos camponeses, diminuição da jornada de trabalho, confisco de bens da patronal, plenos direitos para as mulheres, proteção às crianças, à maternidade e democracia dos trabalhadores.

É claro que os livros escolares de hoje, a mídia dos ricos, precisam esconder esse fato histórico e político incontestável: os trabalhadores, com suas próprias mãos, varrem a patronal, a casta política corrupta e instituem um governo diretamente dos trabalhadores.

É preciso esconder o fato de que quando os trabalhadores se levantaram na Alemanha, em 1919, em 1923, na Hungria em 1919, e, mais adiante, em vários outros países, como no Chile em 1973, em Portugal em 1974, na Grécia recentemente, se eles estivessem organizados em sua própria corrente, independente, poderiam ter repetido a Revolução Russa, poderiam ter se tornado poder de Estado. É preciso esconder que em toda revolução os trabalhadores naturalmente levantam suas assembleias, seus conselhos de democracia direta e que com a estratégia correta, a estratégia soviética, de organizar as lutas sindicais pela base, sem ilusões parlamentares, sem aliança com partidos burgueses, não apenas os trabalhadores poderiam ter feito outras revoluções como, naquele momento, teriam garantido o apoio internacional que fez falta à Revolução Russa e sem o qual ela andaria para trás.

A Revolução Russa é mais do que atual. Ela deve ser estudada, sua estratégia deve ser tomada a serio, como um livro aberto para os trabalhadores brasileiros levantarmos nossa própria revolução.

Uma revolução que seja democrática pela base e internacionalista, como foi a Revolução Russa, de forma que se reproduza em vários países e não tenha que ser sufocada e degradada como a Revolução Russa terminou sendo, pelas mãos de Stálin e do partido comunista burocratizado.

O fato dos bolcheviques terem tomado as fábricas e as terras das mãos dos ricos e terem planejado a economia sem os capitalistas, permitiu um país agrário e arrasado se tornar a segunda potência mundial em poucos anos.

O fato de terem levantado a democracia soviética, dos conselhos de fábrica e de território, levanta, para todos nós hoje, em cada país, a inapagável lição de que a estratégia para triunfar e manter o poder é a mesma da Revolução Russa: as correntes políticas da classe trabalhadora devem defender a democracia pela base, tanto nas lutas sindicais, de bairro, como de fábrica; lado a lado com a defesa de seu movimento independente politicamente da burguesia e que, portanto, em vez de ficar defendendo o “mal menor” de um governo patronal mais “humano”, trate de ir organizando as táticas para impor um governo dos trabalhadores, como foi feito em 1917 pela Revolução Russa. E lado a lado com isso se lance à internacionalização da revolução, de forma que cada nova revolução triunfante venha a fortalecer e tornar irreversível aquelas conquistas sociais, políticas e da democracia dos trabalhadores.




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