Teoria

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: O ANO DE 1917, A TOMADA DO PODER.

A Revolução Russa levantou um Estado dos trabalhadores: em que medida essa é uma questão atual?

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 13 de junho| Edição do dia

[Esta nota é a quarta de uma série de quatro, sobre o ano de 1917, na Rússia]

Gilson Dantas

O poder acaba de ser tomado na Rússia, em outubro de 1917.
Os trabalhadores tinham acabado de levantar um Estado de trabalhadores, contra o capitalismo. Jamais houvera precedente histórico deste porte. Ali estava inaugurada uma forma de democracia avançada, operária, soviética.

No entanto, a reação da burguesia, tanto russa quanto internacional não teve nada de democrática, liberal ou qualquer coisa parecida. Foi de classe. Partiram para uma guerra genocida contra um país atrasado e já amplamente devastado pela I Guerra Mundial.

A burguesia russa recém-derrotada, apoiada pelas “democracias” imperialistas (Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha), desfechou violenta e devastadora guerra civil. A invasão do país dos sovietes por tropas imperialistas dava suporte militar com tecnologia moderna à contrarrevolução interna.

A destruição econômica foi extrema. As perdas humanas contadas aos milhões. O país, reconhecidamente atrasado e previamente devastado pela I Guerra, foi remetido para o império das privações, do tifo, da fome e com casos de canibalismo em certas regiões.

A reação desesperada e de classe das chamadas “democracias ocidentais”, foi mais do que reveladora daquilo que Lenin, seguindo Marx, já explicara mais de uma vez: seu caráter - por mais máscaras democráticas que utilize - de ditaduras do capital, ditaduras que quase nunca são destacadas nos relatos historiográficos escolares em toda sua dimensão destrutiva, terrorista e anti-democrática.
No entanto, a verdade mais profunda é que nem toda aquela carnificina, teve ou terá o poder de negar – jamais teve e jamais terá – o fato histórico de que a tomada do poder pelo proletariado (consumada em outubro quase sem derramamento de sangue) e a constatação de que a revolução proletária, a transformação da classe trabalhadora em poder de Estado é possível.

É possível, necessário e mais que isto: embora através de formas lamentavelmente burocráticas – stalinistas –, nas décadas seguintes, ficou demonstrado que através da planificação econômica sem o capital, é possível fazer o que o capitalismo jamais fez: estender educação, saneamento, alimentação e emprego a todos sem exceção, em um país, ainda por cima, atrasado, majoritariamente camponês..
É possível imaginar, portanto, o que seria a planificação democrática – baseada em formas de democracia de massa – de vários países que derrotas¬sem o capitalismo e se articulassem.

Dito de outra forma: nenhuma dessas conclusões pode ser negada sequer pela degeneração burocrática posterior do partido bolchevique. A história posterior, aliás, só vem a confirmar que sem a democracia partidária que havia antes e sem o funcionamento democrático dos sovietes – poder de Estado do proletariado em transição ao socialismo, em transição à abolição do Estado – não há socialismo, comunismo que mereça esta denominação.

O stalinismo representou a caricatura e a negação genocida do bolchevismo, dos sovietes e do partido (como se pode avaliar em inúmeros estudos começando pelo próprio Trotski; uma obra dele, A revolução traída, é particularmente exemplar sobre este tema).

Em outras palavras: 1917 mostrou uma possibilidade que a ordem capitalista sempre procura negar a da emancipação dos trabalhadores como obra sua, através do partido e dos seus órgãos de democracia operária. Por aqui deve começar qualquer avaliação histórica da Revolução Russa e não pela história posterior da burocracia que continuou falando em sovietes (União “Soviética”) em um país sem sovietes.

À guisa de balanço
Qualquer que seja o debate sobre o legado da Revolução Russa, um dado parece básico: a primeira revolução triunfante dos trabalhadores, só pôde “abalar o mundo” porque inaugurou – mesmo tendo sido em seguida derrotada pelo impasse de contingências históricas mundiais – um poder dos trabalhadores, uma ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses que despertou uma colossal esperança em todos os trabalhadores do mundo.

Para isso, a revolução – através do partido revolucionário de base operária - adotou, desde os primeiros combates de abril, uma estratégia soviética, portanto de massas, que não emprestava qualquer apoio à burguesia. Caso contrário, como resistir ao embate, que se desenvolveu depois, contra todas as potências industriais do mundo?

Em segundo lugar, e este também é outro legado da Revolução Russa, parte essencial daquele impasse ou déficit histórico mundial como o qual teve que lidar a primeira experiência dos trabalhadores no poder, teve absolutamente a ver com a ausência, a tempo, e no seio do movimento operário, europeu e não-europeu, de partidos revolucionários dotados da (ou formados na) perspectiva clara e obstinada, de colocar e conformar todos os movimentos táticos à estratégia da democracia de base, operária, seja ela fundada nos comitês de fábrica, inicialmente, ou nos conselhos de trabalhadores e camponeses pobres.

A ideia de Lenin, Trotski, dos bolcheviques é a de que o socialismo somente pode ser construído pela iniciativa de massas. Aqui vale a pena retomarmos a leitura de Grant:

“No terceiro congresso dos sovietes de toda a Rússia, em janeiro de 1918, Lenin falou: ´com muita frequência chegam ao governo delegações de operários e camponeses e perguntam como devem agir, por exemplo com estas ou aquelas terras. Eu mesmo já me encontrei em situações embaraçosas de perceber que eles não tinham ponto de vista muito claro. E eu lhes dizia: vocês são o poder, façam o que desejam, tomem tudo o que vocês precisam, nós apoiaremos vocês (...)´.
No XVII Congresso do Partido, poucos meses depois, Lenin pôs ênfase no seguinte: ´(...) Uma minoria, o partido, não pode implantar o socialismo. Só poderão implantá-lo dezenas e milhões de seres humanos quando aprendam a faze-lo eles mesmos´.

Essas declarações de Lenin, que podem se multiplicar a perder de vista, refletem sua confiança profundamente arraigada na capacidade dos trabalhadores para decidir seu próprio destino. Isto contrasta agudamente com as mentiras dos historiadores burgueses, que tentaram embaralhar as ideias democráticas do leninismo com os crimes do stalinismo.

Esta ´ditadura do proletariado´ era, em todo os sentidos, uma autêntica democracia de operários, diferentemente do regime posterior totalitário de Stalin. O poder político estava nas mãos das massas, representados através dos sovietes” (GRANT, 69).

Nem bem o novo poder se instalara, tropas francesas desembarcaram em Odessa, invadiram a Crimeia e parte da Ucrânia. Os ingleses marcharam em direção a Petrogrado. Outra parte da Ucrânia foi ocupada por tropas polonesas, francesas e alemãs. A Sibéria foi ocupada por japoneses, norte-americanos e tchecoslovacos. Desde o início de janeiro de 1918, tropas contrarrevolucionárias já se concentravam no sul da Rússia – general Kaledin – e clamavam por “todo poder à Assembleia Constituinte, dirigida pelos partidos conciliadores de direita [Chernov].
A partir de 13 de março de 1918, Trotski refunda e chefia o Exército (como Comissário da Guerra ele irá levantar o Exército Vermelho) para afrontar essa invasão e a guerra civil.

Serão anos de combate desigual, anos em que a primeira República dos trabalhadores sangrará por todos os poros sob o ferro e fogo – nunca será demasiado reiterar – das “democracias ocidentais”.
Depois de anos de contra-ofensiva, os invasores, muito melhor armados, foram, no entanto, derrotados. Os japoneses foram os últimos a se retirarem, em 1922. A Rússia está exaurida.

“Lenin argumentou – citado por Grant, p. 78 - em 15 de março de 1919: `a vitória final completa em escala mundial não pode ser conseguida apenas na Rússia; só pode ser obtida quando o proletariado vencer em todos os países avançados, ou, de alguma forma, em alguns países avançados maiores. Só então poderemos dizer com plena confiança que a causa do proletariado triunfou, que nosso primeiro objetivo – a derrubada do capitalismo – foi alcançado.

Conseguimos esse objetivo em um país, e isso nos coloca diante de outra tarefa. Agora que se estabeleceu o poder soviético, agora que a burguesia foi derrotada em um país, a segunda tarefa é a de lançar uma luta em escala mundial, em um plano diferente, a luta do Estado proletário rodeado por Estados capitalistas”.

A este respeito, e para aprofundamento do tema, recomendamos enfaticamente a leitura do texto de Trotski intitulado Stalinismo e bolchevismo, de 1937, e publicado pela C. Cultural DF/ISKRA e, sobretudo, a revista Estratégia Internacional n.22, nov 2005, em seu texto intitulado La actualidad del analisis de Trotsky frente a las nuevas [y viejas] controvérsias sobre la transición ao socialismo, de Claudia Cinatti).

Lenin já recebeu o título de maior gênio político que o mundo já conheceu: de fato, construiu o partido revolucionário que, pela primeira vez na história, arrancou dos porões da sociedade a classe despossuída e o proletariado, derrubando do poder classes secularmente privilegiadas e detentoras de todo o poder econômico e, sobretudo, instaurando a mais avançada forma de democracia que jamais se vira, a democracia dos conselhos, a democracia direta dos sovietes.

Ainda que fosse apenas por esta conquista, por esta demonstração prática, por esta ousadia secular, a Revolução Russa teria valido a pena. Mas sua validade e seu legado vão muito além.

O legado atual da Revolução Russa
Consideremos a sequência de numerosas revoluções que vêm acompanhando as crises e convulsões do sistema capitalista.

A partir daqui, a partir das derrotas que se seguiram a tais processos revolucionários, de seguidos exemplos de degeneração burocrática, já desde o início da revolução e de acomodação das novas direções desde o momento da tomada do poder (como os partidos-exército de Mao, Castro ou dos vietcongues), várias indagações são inevitáveis: alguns desses partidos – todos eles proclamando-se marxistas ou socialistas – tentou ir ao poder com base na estratégia soviética? Algum deles evitou a expropriação política das massas, dos órgãos proletários?
Este pode ser um interessante ponto de partida para o debate atual sobre o legado da Revolução Russa.

O outro é a questão do chamado "socialismo em um só país".
Trotski [2009] nos lembra que Lenin repetia, após a vitória de Outubro, que “sem a ajuda direta da revolução pro¬letária no Ocidente, a restauração seria inevitável na Rússia. Não estava enganado: a burocracia stalinista não é outra coisa senão a restauração burguesa na Rússia”. Aliás, já desde antes, voltando do exílio na Suíça em direção à Rússia, Lenin, em sua Carta de despedida aos trabalhadores suíços, de março 1917, escreve que à Rússia “lhe foi concedida a grande honra” de iniciar a revolução.

“No entanto, nos é completamente alheia a ideia de considerar ao proletariado russo como o proletariado revolucionário eleito entre os trabalhadores dos demais países... A Rússia é um país de camponeses. Lá o socialismo não poderá vencer em seguida e de forma imediata”. No entanto, “convertida nossa revolução no prólogo da revolução socialista mundial”, pode tornar-se no “degrau para tal revolução” (WEBER, 213).

A Revolução Russa foi concebida como o ponta pé inicial para novas revoluções. Jamais como um país socialista que pudesse suportar muito tempo o isolamento em um mundo imperialista.

O debate pode seguir através de outras perguntas. Por exemplo:
A esquerda marxista, do nosso tempo, no caso da revolução latino-americana [por exemplo, no Chile de 73, no Brasil de 64 ou dos anos recentes na Venezuela de Chávez, na Argentina de 1975 etc], tem priorizado, como fizeram os bolcheviques, a organização independente dos trabalhadores ou, ao contrário, tem claudicado detrás da burocracia sindical, dos governos populares, da institucionalidade burguesa, estabelecendo com uns e outros, alianças e frentes que atrelam ou comprometem a independência do proletariado mais combativo?

Que importância teve ou tem a intransigência estratégica dos bolcheviques – de Lenin e Trotski, sobretudo – em defender vigorosamente em cada comitê de fábrica, em cada fração sindical, em cada agitação o ponto de vista de que “esse governo não é nosso” que a ele não emprestaremos nosso apoio político e nem submetemos as lutas, o programa e a estratégia do poder para os trabalhadores?

Em última instância, não há, portanto, como escapar de uma pergunta básica.
A velha e costumeiramente relegada Revolução Russa, e a experiência política e teórica dos bolcheviques tem ou não a ver com o debate, as tarefas políticas e a estratégica revolucionária dos partidos marxistas contemporâneos (resguardadas as diferenças de época)?

Os grandes impasses do marxismo nos processos revolucionários – como o Chile de 1973 ou a Argentina dos anos 70, por exemplo – podem ou não ser discutidos à luz da experiência da Revolução Russa, de sua álgebra de classe e o debate de estratégia que ela levanta?

Em síntese, abordando a Revolução Russa dessa forma, viva, estaremos nos acercando de um legado que, no mínimo merece ser cientificamente discutido desde, é claro, que se considere esta barbárie social que aí está, no nosso tempo, como capaz de ser revolucionada e também como um processo prenhe de novos surtos revolucionários de massa, de novos Outubros e da possibilidade da democracia dos trabalhadores em um, dois, três países, nos marcos de uma dinâmica rumo à revolução socialista internacional.

Referências
ALBAMONTE, Emilio, 2007. Um debate de estratégias. In Trotski, os sovietes e a estratégia soviética na revolução social contemporânea, Caderno de Política Contemporânea n.6, Edições Centelha Cultural, Brasília, DF, 2008. (Trata-se de palestra pronunciada na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires em 24 de novembro de 2007 em sessão de homenagem aos 90 anos da Revolução Russa).
GRANT, Ted, 1997. Rússia. De la revolución a la contrarrevolución. Madrid: Fundacion Federico Engels.
WEBER, Gerda e Hernann, 1975. Crônica de Lenin: dados sobre su vida y su obra. Barcelona, Espanha: Editorial Anagrama.

Pode lhe interessar o vídeo abaixo, com imagens reais de Lenin:




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