DEBATES NA ESQUERDA

A Resistência, corrente do PSOL, repete os erros do PSTU se adaptando à patronal dos transportes

quarta-feira 30 de maio| Edição do dia

O bloqueio de caminhoneiros impulsionado pela patronal abriu uma crise política de grandes proporções, cujo desfecho segue em aberto. Mostrou a fragilidade do governo Temer e reacendeu em setores de massas a ideia de parar tudo, tão presente na primeira metade de 2017, só que agora capitaneado pela direita.

Lamentavelmente organizações de esquerda se lançaram acriticamente ao apoio a esse movimento, mostrando mais uma vez que perderam qualquer critério de independência de classe. Uma delas foi a Resistência, corrente do PSOL que surgiu da fusão entre o MAIS e a NOS, em sua maioria advindos do PSTU.

Uma ruptura com o PSTU sem conclusões teóricas levou ao retorno às concepções do PSTU

Quando o MAIS rompeu com o PSTU, seu manifesto de ruptura tinha um ponto forte, que se desenvolvido poderia significar um verdadeiro avanço: “avaliávamos que a derrubada do governo do PT só teria um sentido progressivo se realizada pelas mãos da própria classe trabalhadora, por meio de suas próprias organizações. Ao contrário, se liderada pela oposição de direita, a derrubada de Dilma seria uma saída reacionária para a crise política; deseducaria os trabalhadores em sua tarefa de autoemancipação. A segunda hipótese foi exatamente a que ocorreu.”

Ou seja, colocava no centro do debate a discussão do sujeito social que realiza as tarefas colocadas e não somente quais tarefas estão sendo realizadas. Isso marcava aparentemente um ponto de crítica à política das organizações morenistas (Nahuel Moreno era o dirigente argentino da corrente internacional do PSTU, a LIT) que nunca se perguntam quem está lutando, como está lutando e por qual demanda está lutando – se é contra o governo é bom... A NOS, que já era uma corrente do PSOL e se unificou com o MAIS na Resistência, tinha uma avaliação similar.

Como já desenvolvemos em muitos textos essa concepção levou o PSTU a se colocar como a quinta roda do golpe institucional e o MES (corrente da Luciana Genro, do PSOL) a se tornarem os campeões na defesa da lava-jato, espinha dorsal do golpe institucional (que insiste em chamar de golpe parlamentar, deixando o judiciário de fora da definição).

Esse sentido da ruptura, porém, foi perdendo espaço para uma política de frentes programáticas com o petismo, como a plataforma Vamos e o apoio acrítico a Lula durante sua prisão, compondo o movimento lulista com intervenções que eram exaltadas pela sua base sem qualquer delimitação com aquele movimento eleitoral e desmoralizante de entrega sem luta.

Agora a crise nacional aberta pelos bloqueios dos caminhoneiros recoloca sob uma nova forma os mesmo problemas que a derrubada de Dilma e a prisão de Lula colocaram. Nos dois casos a política do MAIS e da Resistência padecem do mesmo vício. Ao separar o conteúdo social de uma mobilização do programa e da política de suas direções, acabam se adaptando aos movimentos tal como eles se dão. Num caso se adaptando a direções reformistas e no outro diretamente à direita e à patronal, um movimento claramente dirigido pelos que até ontem Valério Arcary e outro caracterizavam como “neofacismo”, exagerando os elementos à direita da realidade para justificar sua adaptação ao PT, chegando a dividir palcos com partidos burgueses e Lula, supostamente numa “frente anti-fascista”, enquanto agora a Resistência quer disputar a base reacionária de um movimento que levanta intervenção militar.

Ao romper com o PSTU chegaram a esboçar, ainda que sem a consciência disso, como a evolução da sua política demonstrou, uma das consequências mais bizarras da lógica morenista de revoluções quaisquer, com direções quaisquer. No seu momento, Nahuel Moreno superestimava as revoluções dirigidas por organizações pequeno burguesas que expropriaram a burguesia. Quando a situação da guerra fria começou a se inclinar para a vitória do imperialismo norte-americano, este passou a aplicar uma política de contra-revolução ou reação democrática. Moreno avançou na sua adaptação e passou a reivindicar como revoluções democráticas justamente esses processos de reação, como a transição pactuada no Brasil, e em revisar a partir desses processos a teoria trotskista. Era uma política e uma teoria equivocadas, mas um equívoco que em alguma medida se explicava em um mundo onde havia uma pressão compreensível com um terço do globo com países não capitalistas, com Estados operários deformados ou degenerados. No entanto, Moreno não pode ser responsável pela deriva da LIT e do PSTU, que num mundo onde já não existia a polarização da guerra fria, continuou vendo revoluções em todas as esquinas, inclusive onde o que estava em curso era uma contrarrevolução (como no Egito). Assim chegou ao apoio ao golpe institucional no Brasil, os golpistas na Venezuela e outros...

Não deixa de ser inusitado que depois de toda a polêmica sobre o golpe institucional a Resistencia agora acabe voltando ao ponto de partida, mas não chega a ser uma surpresa. Ao não levar até o final, nem muito menos, as conclusões da sua própria ruptura, continuam reproduzindo uma versão menos bizarra, mas não por isso mais correta, de morenismo fora de época. Menos bizarra por que já existe um esforço mínimo de definir sujeito e programa. Vejamos.

“O movimento dos caminhoneiros é progressivo por sua principal reivindicação, por se enfrentar objetivamente com a política privatista da direção da Petrobras e por estimular outras lutas de trabalhadores.” (ver aqui). Destaquemos primeiro essa passagem “se enfrentar objetivamente com a política privatista...”, de onde os companheiros tiram essa conclusão? Seguem sem considerar a relação entre sujeito social, programa e direção dos processos. Se é verdade que esse processo se choca com o governo Temer e consegue um amplo apoio popular em função da traição aberta do PT e da CUT; também é verdade que quem se fortalece são posições patronais como alternativa a Temer, a candidatura de Bolsonaro, as articulações de Rodrigo Maia e do DEM e a discussão da patronal sobre o “custo Brasil”, todas as forças patronais que apoiam também a privatização.

As classes em luta não se definem somente em função do que lutam, dos programas e das direções. A parte subjetiva do processo faz parte da sua dinâmica objetiva. Em todas as guerras são as massas de trabalhadores que empunham as armas, mas isso em nada define o caráter de classe de cada guerra. É vergonhoso que a Resistencia dê as mãos a um movimento cuja direção empresarial defende uma reforma da Previdência mais agressiva ainda que a do golpista Temer, além da privatização completa da Petrobras.

Pode ser que a grave crise que se abriu estimule o surgimento de outras lutas, que a própria divisão entre a burguesia alente que setores como os petroleiros entrem em luta. Mas a inflexão a direita desse movimento reacionário encabeçado pela patronal vai deixar suas marcas – uma delas que já se faz sentir no imediato, com a forte ameaça de repressão sobre os petroleiros e a maior legitimação da utilização das forças armadas que os setores “radicalizados” dos caminhoneiros propiciaram com a sua bandeira de intervenção militar.

Mas a política continua sendo adaptada ao PT....

Enquanto misturam bandeiras com Bolsonaro e a extrema-direita no apoio aos bloqueios de caminhoneiros, os companheiros seguem firmes da sua adaptação ao petismo. O sujeito ao qual se adaptam pode ser diverso, mas a lógica da adaptação permanece a mesma. Uma vez definido o caráter “objetivamente” progressista de um processo, as direções e o programa já não importam, ou importam muito pouco. "Cometem um erro os setores da esquerda que tratam a greve, desde o princípio, como algo reacionário, pois, desse modo, abrem caminho para a extrema-direita consolidar e aumentar sua influência” (ver aqui). Não, cometem um erro os que se reivindicam revolucionários e não apontam a enorme responsabilidade do petismo e da CUT em abrir caminho para a direita, desde a traição das mobilizações do primeiro semestre de 2017. Aqui de novo o papel das direções foi fundamental para que uma mobilização não só objetivamente, pelo caráter inequivocamente proletário das mobilizações, mas também subjetivamente progressista, pelas demandas que levantava, fosse derrotado e a força social do proletariado desmoralizada, abrindo espaço para o movimento reacionários dos caminhoneiros ocupasse a cena política. Aliás, que está segurando até agora a entrada em cena dos petroleiros, que poderia mudar a conjuntura.

Para a Petrobras, defendem a política de “soberania nacional” e o controle da “política de preços”, “Fora Parente e Temer”, com zero delimitação com o PT e pedindo a volta dos tempos do lulismo para a Petrobras.

Por uma política de independência de classe para que a crise seja paga pelos capitalistas

Não é verdade que apoio a um movimento que tal como é – que terminará fortalecendo setores patronais e a direita e extrema direita – é a única opção de ação nesse momento de crise. A disputa aberta entre setores patronais pode ser uma brecha para a classe operária entrar em cena, particularmente os petroleiros, que estão em greve neste momento para combater a privatização e pela redução de todos os combustíveis, que para nós só pode ser dar com a luta e por uma Petrobras 100% estatal e administrada pelos trabalhadores e com controle popular.

A CUT e a CTB cumprem um papel decisivo para que isso não aconteça, por que também buscam se apoiar num protesto contra Temer apenas para reivindicar a política de preços da Petrobras nos governos petistas, política que a Resistência reproduz acriticamente. E por que com as sucessivas traições desde a greve geral de 28 de abril, que tirou a classe operária das ruas, vem abrindo espaço para que a direita aproveite a insatisfação com o governo Temer para avançar posições.

A entrada em cena da classe trabalhadora, levantando um programa que responda do ponto de vista operário e popular as demandas operárias e populares, que rechace a repressão à greve dos petroleiros e a intervenção militar, seria a única forma de um disputa efetiva, não sobre o bloqueio dos caminhoneiros, mas de impedir que a insatisfação popular com o governo golpista seja canalizada pela direita e inclusive pela extrema direita.




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