Cultura

EVENTO TEATRAL EM SP

A III Feira Antropofágica abre seus trabalhos com teatro, música e debate

Começou nessa quinta-feira, 31, a III Feira Antropofágica de Opinião, que irá até o sábado trazendo apresentações de diversos grupos de teatro que procuram responder a pergunta: "O que pensa você do Brasil de hoje?"

Fernando Pardal

@fepardal

sexta-feira 1º de junho| Edição do dia

Foto: Cia. Antropofágica

Percorri mais de 400 quilômetros saindo do Rio de Janeiro no início da tarde da quinta para poder vir ao que considero o mais importante evento teatral da atualidade no Brasil: a Feira Antropofágica de Opinião. Digo isso não apenas para transmitir como considero a iniciativa da Companhia Antropofágica (com o admirável trabalho incansável de seus membros para realizar um evento assim) de importância fundamental, como também para justificar o fato de que meu relato sobre o primeiro dia é necessariamente muito parcial, pois pude assistir apenas as apresentações finais. Perdi certamente apresentações incríveis, além do debate com Dulce Muniz, veterana do teatro militante de esquerda (relatos me dizem que a apresentação da Cia. Estudo de Cena foi o ponto alto do dia). Conto aqui um pouco do que pude ver.


Foto: Cia. Antropofágica

Na entrada da Oficina Cultural Oswald de Andrade, uma espécie de manifesto da Cia. Antropofágica explica um pouco das intenções do grupo com o evento:

Como diz a carta, a Feira é inspirada na Feira Paulista de Opinião, de 1968. A Antropofágica engoliu ela e faz algo distinto. Chama os grupos e lhes convida a ler o Brasil de hoje. Entre os grupos chamados, a Antropofágica inclui seus parceiros de luta e de palco, grupos que fazem parte do cenário dos grupos teatrais de esquerda que floresceram em São Paulo em grande parte (mas não só) a partir da conquista da Lei de Fomento ao Teatro da cidade.

Contudo, não são apenas aqueles que possuem afinidade estética e/ou ideológica que figuram entre os convidados. A Feira quer colocar a contradição e o debate, e quando eu cheguei na Oswald de Andrade ontem a primeira apresentação que vi foi de um grupo que, famoso entre os frequentadores da Praça Roosevelt, está distante de ser um teatro de esquerda ou vinculado a trabalhadores e movimentos sociais, como é o círculo dos parceiros da Antropofágica. Era a apresentação d’Os Satyros.

Trazendo um coletivo que não é composto pelo núcleo principal do grupo, com atores e atrizes trans, o debate que Os Satyros colocou no palco foi sobre os gêneros, a transfobia, os conflitos de indivíduos trans para reivindicar sua identidade, poder afirmar seu corpo e sua livre expressão de gênero sem se submeter às amarras impostas pela sociedade.

Em que pese a louvável iniciativa do grupo em colocar atrizes e atores trans no palco para falar sobre os conflitos que pesam sobre eles cotidianamente, algo que indica um sentido interessante, o que chama a atenção são os limites ideológicos impostos pelo que é o próprio grupo.

Os Satyros sempre foi um grupo caracterizado por uma suposta "subversão", com montagens de Marques de Sade, por exemplo, mas que não tem nada subversivo em si. Se é verdade que colocar a transgeneridade no palco, falando por sua própria voz, em um país recordista em assassinatos e violência contra a população trans, é algo fundamental, cabe aos artistas militantes, ao teatro que se coloque numa perspectiva minimamente transformadora, procurar ir além das aparências das contradições sociais.

Se em outros momentos sequer se poderia fazer tal exigência dos Satyros, posto que em nada pareciam querer ser um teatro militante ou transformador, no momento em que levam esse tema ao palco já não se pode dizer que não tenham tido a intenção de se enfrentar com algo da ideologia dominante - e nisso estão de parabéns.

Contudo, vivemos em tempos em que até mesmo pilares da ideologia dominante, como a Globo, se antecipam à mudança de tempos e começam a colocar nas suas novelas, séries, jornais temas como racismo, machismo e transfobia. O que está longe de querer dizer que ela quer efetivamente transformações sociais que garantam a todas as pessoas - e em primeiro lugar às mulheres e pessoas trans - o direito à sua sexualidade e sua identidade de gênero. Trata-se, como sempre foi no capitalismo, de uma tentativa de cooptar e domesticar aquilo que possua um potencial explosivo de se colocar contra a ideologia dominante e, a partir disso, questionar o regime social que esta sustenta.

As cenas apresentadas pelos Satyros colocam todos os questionamentos em uma perspectiva puramente individual, do indivíduo perante a construção de sua identidade, de suas escolhas afetivas, estéticas, etc. Uma perspectiva que é impotente para poder emancipar as próprias pessoas que colocam essas questões em cena e nas suas vidas. E se encerra, de maneira muito representativa, num casamento de uma pessoa trans não-binária com uma mulher trans, mostrando que seu horizonte de questionamento se encerra ali, na luta para que as pessoas trans sejam plenamente integradas em uma sociedade tal qual ela é. Por isso, sua representação das pessoas trans se aproxima mais daquela da rede Globo - ideologicamente - do que de uma que questione as causas estruturais da transfobia.

Em seguida, o grupo Cia Les Commediens Tropicales entrou em cena para mostrar que definitivamente a Cia. Antropofágica colocou a perspectiva de uma Feira onde a liberdade no campo estético estivesse à frente. Numa apresentação sem palavras, performativa e trazendo à feira a representação do pós-dramático, o grupo colocou cenas abertas à interpretação do público. Pessoas de vestidos elegantes e trajes sociais, com as cabeças cobertas, levavam placas sem nada para protestos na rua em frente à Oswald.

Em seguida, jogavam suas placas no lixo. Com seus trajes burgueses e as mandíbulas presas por armações metálicas, postavam-se diante de um microfone onde um representante dos engravatados se pronunciava por meio exclusivamente de arrotos.

A essas cenas, onde uma crítica à postura da classe dominante pode ser mais facilmente lida, se seguia outra, mais hermética, envolvendo pessoas tentando arrumar jornais para dormir diante de ventiladores, músicos mascarados, e pessoas que se alternavam tomando seus pares no colo, pisando neles ou sendo pisados.

E, num desses saltos bruscos que só um evento como a Feira é capaz de dar, a noite girou para a apresentação do Grupo Arlequins de Teatro, que apresentou um trecho de sua peça "O Capital", que com os recursos característicos do teatro de agitprop (agitação e propaganda), procura mostrar de forma muito didática os conceitos fundamentais da obra mais importante de Marx.

Em debate após a apresentação, o grupo, com mais de 40 anos de estrada, contou como surgiu a ideia de fazer a peça após as jornadas de junho de 2013, quando a convulsiva situação política no Brasil, os atos de centenas de milhares e suas imensas contradições levaram o grupo a refletir que era necessário voltar aos fundamentos. Tendo sempre trabalhado com peças políticas de denúncia do capitalismo, consideraram que era hora de parar de "tangenciar" o tema fundamental e atacar o cerne da questão. O espetáculo "O Capital" está em cartaz.

A noite foi encerrada pelo show de Elaine Guimarães e o Cabaret Feminista, com canções que falam sobre o direito ao corpo e a sexualidade das mulheres, a violência e o feminicídio, e trouxe um funk inédito de Elaine onde ela responde a pergunta feita pela Feira dizendo que considera que o país hoje passa por um "Estado de exceção", devido aos ataques aos direitos, prisão sem provas de um ex-presidente, assassinatos da juventude negra nas periferias, etc.

Veja trecho da música "Não Cala":

A Feira Antropofágica de Opinião continua até sábado, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, na Rua Três Rios, 363. Veja abaixo a programação completa:




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