Mundo Operário

GREVE DOS CORREIOS

7 razões pra entender e apoiar a greve dos Correios

Poucas categorias fizeram tantas greves quanto os ecetistas nos últimos tempos e, por outro lado, a população nunca foi tão mal atendida, com entregas alternadas, atrasos e extravio de carga por assaltos ou incêndios. O que uma coisa tem a ver com outra? Privatizar resolveria alguma coisa? Veja porque acreditamos que a população e os trabalhadores dos Correios devem se unir por outro projeto de estatal, e quem ganha com isso é a classe trabalhadora.

domingo 11 de março| Edição do dia

Amanhã, 12, começa mais uma greve nacional nos Correios. O Tribunal Superior do Trabalho, TST, vai julgar e definir como deve funcionar o convênio médico dos trabalhadores. Além disso, a atual direção da empresa, que é parte do governo golpista, anunciou uma série de ataques tão graves e até mais profundos do que o do convênio médico, e é contra tudo isso que os trabalhadores lutam.

Os atrasos nas entregas e outras situações calamitosas na empresa, fruto do desmonte provocados pelos governos, e principalmente o atual governo golpista, junto com aumento de tarifas, tem provocado uma grande insatisfação na população, chegando a gerar conflitos com funcionários. Setores reacionários e antioperários, como MBL, Vem pra Rua, e a família Bolsonaro, se aproveitam dessa insatisfação pra insuflar a população contra as greves de trabalhadores e ainda defender o projeto em curso de privatizar as estatais como uma saída. Veja porque não cair nessa:

1 – O TST é composto por privilegiados que recebem fortunas e são eles que vão ajudar a empresa a arrancar o convênio dos trabalhadores

Não é novidade, e você pode conferir aqui no Esquerda Diário diversas matérias sobre os grandes privilégios dos juízes e do setor judiciário. Ganham salários milionários, diversos benefícios e estão em defesa de seu próprio auxílio-moradia, e mesmo assim se acham no direito de definir os rumos do país e da vida dos trabalhadores, mesmo não tendo sido eleitos por ninguém. É o mesmo setor judiciário que sempre bateu seu martelo contra as lutas dos trabalhadores. Também é o mesmo setor que decidiu condenar Lula não porque esse atacou os trabalhadores (como fez nos Correios), mas para decidir de antemão em quem os trabalhadores podem ou não votar. Nesse sentido acreditamos que quem tem que julgar o Lula e todos os políticos é a própria classe trabalhadora, com juri popular, e não esse setor privilegiado. Do mesmo modo, permitir que decidam como funciona o convênio médico dos trabalhadores é um precedente a mais pra que esse mesmo setor controle e arranque os benefícios de todos os trabalhadores de forma arbitrária.

2 – O convênio médico é um benefício conquistado pela luta e não um privilégio

Ao contrário do que diz a direção da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ECT, e seus aliados, como a Band, o convênio médico nada mais é do que uma migalha, frente ao sucateamento do sistema público de saúde, considerando que o salário dos ecetistas está entre os mais baixos das estatais e o desgaste físico do trabalho adoece muitos trabalhadores. Por muitos anos o próprio RH da empresa geria esse convênio, tendo poucos gastos administrativos. Depois foi criada uma empresa privada para gerir o novo convênio, com diretores indicados e muito bem pagos, e outras despesas, e é por isso que tentam impor uma lógica de convênio privado, com mensalidades e diferentes opções comerciais de planos para os dependentes, além do compartilhamento que já existe quando se utiliza o convênio. Quando se diz que temos um privilégio enorme de colocar os pais como dependentes, não são todos os pais, mas aqueles que dependem do filho, que não tem renda, e que, portanto, a sobrevivência depende do salário e dos benefícios desse trabalhador. Sabemos da realidade miserável de milhares de idosos no nosso país e o quanto o acesso a saúde faz diferença. Os salários de boa parte dos trabalhadores está na faixa de R$1.500,00 a depender da função e tempo de serviço, sendo que a maioria recebe menos de R$2.000,00 e qualquer mensalidade cobrada a partir desse valor significa uma enorme redução no salário.

3 – Não há funcionários suficientes para atender a população, e a ECT quer tirar mais

A maior parte dos atrasos nas entregas que tanto enfurece a população é explicada pela falta de funcionários. Uma matemática simples, mas que Guilherme Campos e o governo golpista tentam falsificar. É impossível atender uma demanda crescente com um quadro de funcionários decrescente. Já houve diversos planos de demissões nos últimos anos, sendo que ao final do ano passado milhares de pessoas deixaram a empresa, sem contar os que já tinham se aposentado, saído por conta própria por outras razões, e até mesmo falecido, sendo que o último concurso foi em 2011. Um desrespeito e um abuso com quem está trabalhando por vários, com a população que não é atendida, e com os desempregados do país, que poderiam ocupar esses cargos. Mas a intenção do governo é adequar a lógica da reforma trabalhista e da terceirização irrestrita: contratar funcionários sem direitos e com salários ainda mais baixos, se aproveitando do desespero dos desempregados pra explorar mais por menos. Por essa razão, duas medidas foram anunciadas recentemente e estão na pauta dos trabalhadores: a extinção do cargo de operador de triagem e transbordo (OTT) que seria realizada somente por terceirizados, e o fechamento de agências (enquanto existe toda uma rede de agências terceirizadas lucrando com o serviço de Correios). E esses postos de trabalho efetivos serão também eliminados.

4 – A ECT não está falindo por conta dos benefícios dos funcionários e não deixou de ser lucrativa

A verdade é que atrás do mito da crise existem muitas contas mal explicadas, desde o salário absurdamente alto do presidente e seus vices, maior que o do Presidente da República, bem como todo um alto escalão que dirige a empresa ganhando fortunas pra tomar medidas bastante duvidosas de investimentos e gastos altíssimos. Frente a isso, temos que defender a abertura das contas, investigar de forma independente, e junto a população decidir pra onde deveria ir o dinheiro. Além disso, se uma empresa não tem potencial de gerar lucro, nenhum setor privado estaria interessado em comprar, certo?

5 – Não é verdade que o problema dos Correios é o monópolio postal e a falta de concorrência

O monopólio postal é exclusivamente referente as cartas, sendo que existe ampla concorrência no setor de encomendas e é possível ver diversas empresas de logística atuando no Brasil. A verdade é que essas empresas não querem investir e se responsabilizar pela entrega em pequenas cidades pouco lucrativas, ou oferecer serviços que atendam toda a população, mas ficam de olho na grande estrutura, que é patrimônio da população, e seus pontos mais lucrativos.

6 – Privatizar não é o melhor jeito de livrar as estatais da corrupção e dos cargos políticos

Se tem uma verdade nos discursos da direita, é quando dizem que as estatais são alvo de corrupção e que os culpados são os indicados políticos. A resposta, eles dizem, é privatizar, ou seja, entregar a gestão para um empresário capitalista, que só visa a eficiência para garantir seus lucros de forma honesta. Esse discurso é tão manjado e falso que o próprio Guilherme Campos, um empresário e político, e ele mesmo um exemplo e síntese dessa mentira que é separar o empreendedor bem sucedido e honesto do político corrupto, se apoia nesse discurso pra justificar parte da crise, mas alegando que isso foram os políticos do passado, e não ele próprio. É uma completa mentira que não há corrupção nas empresas privadas ou que há alguma honestidade nos lucros (fruto da exploração), tanto que os casos de corrupção sempre envolve esquemas entre políticos burgueses e empresários em diversas redes de relação. Qual a saída? Uma estatal livre desses sanguessugas, porém controlada por trabalhadores e a própria população, com cargos eleitos e transparência e controle popular nos gastos e decisões, bem como de quais serviços devem ser realizados e de que forma.

7 – Os trabalhadores formam uma só classe

É comum a mídia e os capitalistas de modo geral usarem o discurso de que os motivos da greve até podem ser justos, mas que ela só prejudica a população, por isso uma categoria sempre deveria ser contra a greve de outra categoria. Também alimentam o sentimento corporativista e individualista de que cada um tem que cuidar dos seus problemas, e quanto mais individualmente, melhor. Assim tentam iludir e dividir a classe trabalhadora. E muitas vezes as próprias direções sindicais, seja pelo rotineirismo ou mesmo pra controlar os trabalhadores, alimentam essa mesma ideia. A verdade é que além dos Correios ser uma empresa pública, que se fosse gerida pelos trabalhadores e pela população poderia realizar um serviço de qualidade e ao mesmo tempo dar condições de trabalho e salário dignos aos seus trabalhadores, o que por si só já é motivo pra essa ser uma causa coletiva, já que não é a greve que está criando a falta de entregas, mas ao contrário, estamos também lutando contra isso, tem mais questões. Quando um setor da classe operária é atacado, isso ataca toda a classe. Os capitalistas se apoiam na derrota de um setor pra impor mais derrotas, e fazem aquele discurso “vocês estão reclamando das mensalidades nos convênios, mas outras categorias nem isso tem”, e assim vão atacando todos aos poucos. Do mesmo modo, uma vitória é sempre ponto de apoio para os outros setores irem por mais. Além disso, estamos em uma conjuntura muito específica, e toda essa realidade dos Correios é parte dela. Uma conjuntura de um golpe institucional que criou condições para atacar direitos históricos dos trabalhadores e seguem atacando. Pra fazer frente será necessário um plano de lutas que envolva toda a classe trabalhadora, organizando e articulando cada luta frente a esse inimigo comum, e cada luta isolada que está acontecendo pode ser ponto de apoio pra isso. Por isso é necessário aos trabalhadores dos Correios e também das outras categorias, exigir de seus sindicatos e das grandes centrais, em primeiro lugar a mais ampla solidariedade, e junto com isso a construção de um plano de lutas conjunto, colocando todo o aparato e influência que tem a serviço de levar as lutas à vitoria e organizar a luta conjunta.




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