Teoria

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

5 mentiras da burguesia sobre a Revolução Russa

sábado 28 de outubro| Edição do dia

1. "A Revolução de Outubro foi um golpe de um punhado de intelectuais elitistas e maquiavélicos que chegaram ao poder manipulando uma “plateia” de espectadores passivos e indiferentes."

A ideia de que o Partido Bolchevique era uma minúscula organização de conspiradores profissionais alheios ou mesmo hostis aos trabalhadores russos é geralmente justificada, por parte dos historiadores da burguesia, descontextualizando-se uma citação de O que fazer? de Lenin, na qual este afirma que os trabalhadores, espontaneamente, só podem ter uma consciência reformista e, portanto, a consciência revolucionária ou socialista “vem de fora” da classe trabalhadora. Tal citação, datada de 1902, refere-se às dificuldades das primeiras organizações marxistas naquele que era o país mais reacionário da Europa, uma monarquia de direito divino, que não tinha uma Constituição burguesa, onde a organização de partidos políticos e de sindicatos era ilegal e cuja polícia política era a mais temida do mundo. Em 1905, o próprio Lenin irá revisitar aquela afirmação, criticando os camaradas bolcheviques que contrapunham a direção consciente de um partido político revolucionário, marxista à auto-organização dos trabalhadores (que dirigiriam sua própria revolução, organizados em partido).

Chegando à Rússia em abril de 1917, Lenin não exigiu de imediato a derrubada do governo provisório dos capitalistas, que ainda tinha o apoio da maioria da população, e sim que os bolcheviques explicassem pacientemente aos trabalhadores que os soviets (veja nª. 2) devem assumir o poder de Estado. Segundo Lenin, o governo provisório não poderia ser derrubado até que os próprios bolcheviques tivessem o apoio da maioria, que não era passiva muito menos indiferente. Em outubro, marinheiros armados aproximavam-se dos bolcheviques após seus discursos e, apresentando-lhes suas baionetas, perguntavam: Quando, enfim, iremos usa-las? A essa altura, os bolcheviques tinham conquistado o apoio da esmagadora maioria, expressando seus anseios de tal maneira que o governo provisório pode ser derrubado sem que um único tiro fosse disparado em Petrogrado. Também foram os bolcheviques que evitaram que as massas de Petrogrado derrubassem o governo provisório espontaneamente nas Jornadas de Julho, pois uma insurreição precipitada poderia isolar a capital do interior, onde o governo provisório ainda tinha apoio. O Partido Bolchevique pode dirigir as Jornadas e evitar o pior porque, após 14 anos (1903-1917) de duríssimo trabalho entre os operários russos, as posições dos bolcheviques foram ganhando força como expressão das necessidades e anseios das massas, possibilitando que o partido crescesse de 17 mil militantes, em fevereiro de 1917, para 240 mil em outubro, “fundindo-se” organicamente com a classe operária.

2. "Desde o começo, verdadeiro objetivo dos revolucionários russos (bolcheviques) sempre foi a ditadura de partido único".

A Revolução de Outubro transferiu o poder para o II Congresso dos Soviets de Toda a Rússia, instalado no mesmo dia da insurreição: 25 de outubro de 1917. Os soviets eram os conselhos de delegados operários, os quais eram eleitos nas fábricas, entre os próprios trabalhadores, cujos mandatos eram revogáveis a qualquer momento, e os salários, os mesmos de um trabalhador comum. “Competindo” com o governo provisório depois do fim da monarquia, tais conselhos eram uma forma de democracia um milhão de vezes mais democrática que as “democracias” capitalistas, como o Brasil, nas quais os políticos são privilegiados e se elegem mentindo, enriquecem às custas do povo, e continuam no poder durante anos a fio, mesmo traindo aqueles que o elegeram e quem eles supostamente deveriam representar!

Os soviets são organizações multipartidárias nas quais todas as tendências políticas do proletariado podem lutar pela direção à base da mais ampla democracia. Até setembro de 1917, os bolcheviques eram minoritários, e os dois partidos majoritários eram o menchevique e o socialista-revolucionário (SR), que eram parte da coalização do governo provisório, junto a outros partidos capitalistas. Desde o retorno de Lenin à Rússia, os bolcheviques exigiam que esses dois partidos rompessem com a burguesia, expulsassem os ministros capitalistas e formassem um governo próprio, puramente menchevique e SR, que fosse responsável perante os soviets, nos quais esses mesmos partidos eram a maioria; se o fizessem, o Partido Bolchevique não participaria do governo, mas se a comprometeria a não usar a violência contra esse governo e a combater a restauração da monarquia czarista. Imediatamente após a insurreição de Outubro, o II Congresso imediatamente aprovou o fim do governo provisório, tendo votado a favor três quartos dos delegados do Congresso, não somente bolcheviques, mas também a ala esquerda do partido SR.

A minoria democraticamente derrotada de mencheviques e SRs de direita retirou-se do congresso e, aconselhada por representantes do imperialismo inglês, francês, alemão e estadunidense, apoiou todas as tentativas de golpe contra o recém-constituído poder soviético por parte dos generais czaristas, que eram inimigos do governo provisório até a Revolução de Outubro. Os detalhes de tais conspirações podem ser lidos em O ano um da Revolução Russa, de Victor Serge. Não era vantajoso de nenhuma maneira que os bolcheviques fossem o único partido responsável pelo governo; mencheviques e SRs pegaram em armas contra o poder soviético desde 1917 mas não foram proibidos até junho de 1918, quando a guerra civil já opunha ao poder soviético não somente monarquistas russos mas também catorze exércitos estrangeiros, entre os quais, as principais potências imperialistas da época: EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Japão. A proibição de outros partidos foi uma medida defensiva excepcional, num momento imposto pela história, que, segundo Trotsky, “não deriva de nenhuma ‘teoria’ bolchevique,” teoria esta cuja norma programática é o pluripartidarismo soviético.

O responsável pela institucionalização burocrática do regime de partido único, sem consideração pelas distintas circunstâncias, foi o stalinismo, negação contra-revolucionária do bolchevismo dirigido por Lênin e Trotsky. A burguesia, naturalmente, tenta confundir tudo.

3. "Se a Revolução de Outubro não tivesse derrubado o governo provisório, a Rússia teria se tornado uma democracia".

O governo provisório é frequentemente descrito por historiadores burgueses como um governo “progressista”, dirigido por “socialistas democráticos” que poderiam ter transformado a Rússia em uma democracia tal qual a França ou Reino Unido de seu tempo se tivessem tido mais tempo antes dos “conspiradores” bolcheviques o derrubarem. Mas os ditos conspiradores conquistaram o apoio esmagador da maioria da Rússia explicando pacientemente que só os soviets poderiam tirar o país da Primeira Guerra Mundial, redistribuir as terras dos latifundiários entre os camponeses pobres, convocar uma Assembleia Constituinte, em suma, atender as reivindicações da Revolução de Fevereiro, que pôs fim à monarquia; reivindicações essas que o governo provisório adiava repetidamente e que, de fato, não poderia atender por causa de seus vínculos umbilicais com o imperialismo anglo-francês. Em poucas horas, o II Congresso dos Soviets aprovou os decretos sobre a paz e a terra, atendendo aquelas reivindicações que o governo provisório não tinha atendido em oito meses! A Revolução de Outubro comprovou a teoria da Revolução Permanente de Leon Trotsky, segundo a qual as tarefas democráticas que a classe capitalista cumpriu nas revoluções burguesas do século XIX, como a reforma agrária, etc., são impossíveis de serem cumpridas nos países da periferia capitalista a não ser por uma revolução do proletariado que transita “permanentemente” do programa da revolução democrática ao seu próprio programa de classe, anticapitalista e socialista.

Depois das Jornadas de Julho, um general czarista, Kornilov, aproveitou-se do desgaste das massas de Petrogrado e tentou um golpe contrarrevolucionário contra o governo provisório, mesmo depois de este governo “progressista” e “democrático” ter criminalizado o Partido Bolchevique e prendido seus principais dirigentes. Algo semelhante aconteceu no Chile de Salvador Allende, uma suposta experiência de “socialismo democrático” interrompida pelo golpe do general Augusto Pinochet, nomeado comandante em chefe do exército pelo próprio Allende duas semanas antes. Em geral, a história dos países da periferia capitalista é uma sequência de golpes atrás de golpes e ditaduras atrás de ditaduras, pois o regime democrático capitalista é um privilégio dos países imperialistas impossível de existir de maneira estável, a longo prazo, nos países periféricos, como Chile e Brasil, onde a burguesia é fraca e dependente do imperialismo, os trabalhadores são superexplorados e as questões democráticas não-resolvidas oprimem as massas. Se a Revolução de Outubro tivesse sido derrotada, a Rússia teria se tornando não uma democracia, mas muito provavelmente uma semicolônia alemã (Trotsky diria, "um país entre a antiga Rússia czarista e a Índia) governada ditatorialmente por Kornilov ou outro general czarista qualquer.

4. "O stalinismo é a continuação natural e inevitável da Revolução de Outubro e do bolchevismo leninista".

A Revolução de Outubro não era concebida pelos bolcheviques como uma revolução russa tão somente, mas sim como o “detonador” de uma revolução internacional, a qual se expandiria por todos os países participantes da Primeira Guerra Mundial, e que não poderia triunfar a não ser que o proletariado conquistasse o poder em alguma das potências da Europa ocidental. Depois da Revolução de Outubro, outras tentativas de revolução aconteceram em vários países do continente europeu, entre os quais Itália e, principalmente, Alemanha, onde houve um processo revolucionário quase contínuo, ininterrupto, entre 1917 e 1923, mas tais revoluções foram derrotadas, sobretudo por causa da traição dos partidos socialdemocratas, cujo papel contrarrevolucionário em tais processos foi análogo aos dos mencheviques russos. Assim, a revolução proletária triunfante da história foi isolada em um país miserável e destruído por quatro anos de guerra mundial e três anos de guerra civil contrarrevolucionária.

A construção do socialismo precisa estar baseada e estruturada no desenvolvimento das forças produtivas, de maneira a aumentar a produtividade, diminuir a jornada de trabalho e, assim, abolir progressivamente a divisão entre trabalho manual e intelectual, a existência de funcionários permanentes, socializando as funções administrativas entre todos os trabalhadores, rotativamente, além de aumentar o tempo livre, possibilitando que todos possam dedicar-se à ciência, a arte, cultura, a desenvolverem suas máximas potencialidades humanas. Tal coisa é impossível em um só país, pois um país que se isola da economia mundial comparativamente diminui, e não aumenta, suas forças produtivas. Portanto, o socialismo só pode ser construído em escala mundial, planificando as forças produtivas de toda a humanidade.

As contradições de uma revolução proletária isolada transformaram-se em uma reação termidoriana, isto é, uma contrarrevolução dentro da própria Revolução de Outubro, que foi usurpada por uma burocracia cujo principal representante era Stalin. Essa casta privilegiada, surgida da necessidade, “descolou-se” e desenvolveu interesses próprios, opostos aos da classe trabalhadora, expropriando politicamente os trabalhadores russos, destruindo os soviets, assassinando os revolucionários bolcheviques, antigos camaradas de Lenin, e “parasitando” a economia planificada. Em 1923, Trotsky organizou a Oposição de Esquerda, que lutou contra a degeneração burocrática da Revolução, mas a Oposição só podera triunfar se o isolamento da Rússia fosse rompido. Em 1924, a burocracia stalinista inventou a ""teoria"" do socialismo em um só país, que subordinava os partidos comunistas de todo o mundo às alas esquerdas de suas respectivas burguesias nacionais, traindo os processos revolucionários que estavam acontecendo em todo o mundo, por exemplo, na China, na década de 1920, na Espanha, na década de 1930, entre outros. Não é uma linha vermelha, mas um rio de sangue que separa o bolchevismo do stalinismo, escreveu Trotsky, então. Ou os trabalhadores fariam uma nova revolução política, derrubando a burocracia e restaurando a democracia soviética, ou a burocracia restauraria o capitalismo, o que de fato aconteceu na década de 1980.

5. "A Revolução de Outubro socializou apenas a miséria".

Os capitalistas associaram a imagem do socialismo às fotografias de filas quilométricas e prateleiras vazias (algo excessivamente comum, ao contrário, nos países capitalistas, em que 8 bilionários concentram a mesma riqueza que metade da humanidade), mas tais fotografias são evidências contra, e não a favor do caso do suposto “fracasso” do socialismo, pois datam da época da Perestroika, isto é, do processo de restauração capitalista da União Soviética, que, até 1985, crescia aproximadamente 3% ao ano, e mais de 5% em média durante a década de 1970, taxa comparável à da economia estadunidense até 2008. A Revolução de Outubro transformou o país mais atrasado da Europa, no qual mais nove décimos da população eram camponeses cujas técnicas agrícolas e produtividade não tinham aumentado desde o século XIV, em uma potência econômica, militar, científica e “cultural”, cujo nível educacional da população era elevadíssimo, havia pleno emprego e, em geral, a vida dos trabalhadores era melhor que em muitos países capitalistas.

Uma das primeiras conquistas da Revolução de Outubro foi a realização de uma campanha de alfabetização sem precedentes, que não se compara a nada que país capitalista algum tenha feito até hoje, cem anos depois daquela Revolução! Em 1920, é criada a Comissão Estatal para a Eletrificação, ou Golero; na Rússia czarista, a esmagadora maioria da população russa não tinha eletricidade. Em 1932, Trotsky, palestrando a convite da juventude socialdemocrata dinamarquesa, dirá:

Em cifras globais, a curva do desenvolvimento industrial da Rússia expressa-se desta forma: ponhamos para o ano de 1913, o último ano da anteguerra, o número 100. O ano 1920, fim da guerra civil, é o ponto mais baixo da indústria: 25 somente, isto é, um quarto da produção de antes da guerra. 1929, aproximadamente 200. 1932, 300, ou seja o triplo do que havia nas vésperas da guerra. O quadro aparecerá ainda mais claro à luz do índices internacionais. De 1925 a 1932, a produção industrial da Alemanha diminuiu aproximadamente vez e meia. Na América, aproximadamente, alcançou o dobro. Na União Soviética, subiu a mais do quádruplo.

A produção soviética de ferro dobrou entre 1933 e 1936; no mesmo período, a União Soviética, que era o 10º maior produtor de carvão e o 6º maior produtor de aço do mundo, tornou-se, respectivamente, o 4º e o 3º. Em 1936, a produção de ferro, carvão e petróleo tinha triplicado em relação aos níveis de antes da Primeira Guerra Mundial. Em 1935, a Rússia tinha 95 estações de energia distritais e uma capacidade produtiva total de 4,345 milhões de quilowatts, comparado a 10 estações e 253 mil quilowatts no ano de criação da Golero. Nenhum país capitalista jamais alcançou tal ritmo de desenvolvimento. “O socialismo”, escreve Trotsky, “mostrou seu mérito e vitória, não nas páginas de O Capital, senão na arena industrial que compreende 1/6 da superfície da Terra – não nos termos da dialética, mas nos termos do aço, da eletricidade e do cimento.” Tais estatísticas são ainda mais espantosas sabendo-se que a URSS não era um país socialista, e sim um Estado operário de transição entre o capitalismo e o socialismo, transição esta que foi interrompida pela burocracia. Ou seja, grandes conquistas mesmo em meio a uma Revolução que foi usurpada. O que dizer das possibilidades que teria um Estado operário onde ocorresse pleno controle e decisão por parte da classe trabalhadora organizada em soviets?




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