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DOSSIÊ DIA DA MULHER NEGRA, LATINA E CARIBENHA

25 de julho: Dia Nacional de Tereza de Benguela, a líder do Quilombo de Quariterê

Lembrar o 25 de julho e a luta do quilombo liderado por Tereza de Benguela é não esquecer jamais a luta das mulheres negras

quarta-feira 25 de julho| Edição do dia

Tereza de Benguela é uma rainha do século XVIII. Estrategista militar e dirigente política, esteve à frente do Quilombo de Quariterê, localizado no território que hoje corresponde ao Vale do Guaporé, no estado do Mato Grosso. Estabeleceu em seu quilombo uma forma de governar que funcionava à semelhança de um parlamento, com deputados, um conselheiro, reuniões e uma sede, como atestam documentos da época, especialmente os “Anais de Vila Bela” . O Quilombo de Quariterê existiu de 1730 a 1795, e a liderança de Benguela vigorou até 1770, quando foi presa e morta pelo Estado.

Devido à precariedade de fontes, informações como sua origem, seu reinado e sua morte são desencontradas. Não se sabe sua idade, se nasceu no Brasil ou na África. Seu “sobrenome dá a pista”: “de Benguela”, que pode se referir à Benguela-a-Velha, colônia portuguesa em Angola. O reinado de Tereza aponta para duas hipóteses: uma diz que ela teria assumido a liderança do quilombo depois da morte de seu companheiro, José Piolho; outra que, desde sua formação, em 1930, Quariterê foi dirigido pela mulher.

A tomar pelo “Anal de 1770”, a segunda hipótese parece ser a mais provável, uma vez que, por exemplo, refere-se ali a José Piolho como o deputado “de maior autoridade”, tido como “conselheiro” da rainha, “que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à risca, sem apelação nem agravo”. Não obstante esse fato e o incontestável predomínio da figura de Tereza de Banguela em todos os âmbitos da direção de Quariterê, inclusive a de liderar um exército de cerca de cem pessoas, a fortificação é conhecida e referida ainda hoje também pela variante Quilombo do Piolho.

Os habitantes eram, em sua maioria, pessoas negras, mas há também registro de indígenas, e nisso o “Anal de 1770” é ambíguo, porque tanto relata a presença de mulheres que teriam sido levadas à força pelos homens negros que se enfrentavam com homens indígenas, e os matavam, quanto de índios armados lutando lado a lado dos negros contra os ataques dos colonizadores. De todo modo, há no nome Quariterê um dado pelo qual não se pode passar batido: essa palavra é, provavelmente, derivada de “guariteré”, que em tupi-guarani significa “piolho”, mas contém também o nome de Tereza, no seu diminutivo carinhoso abrasileirado “Terê”. Romantismo linguístico à parte, o fato é que os paralelos com a hierarquia do opressor serão sempre insuficientes em casos como esse, em que Tereza, José e seus conselheiros estavam bem longe de constituir um “conselho de fidalgos”.

A organização social de um quilombo não se sustenta na forma da dominação, baseada no ataque, mas, pelo contrário, por se tratar de uma resistência, concentra-se na defesa, construindo e desenvolvendo métodos de não sucumbir diante do inimigo. Assim, a luta mais urgente pela libertação se torna, uma vez efetivada a fuga, a luta pelo próprio direito de existir. É daí que vem a necessidade de se organizar levando em conta não apenas os aspectos práticos da vida cotidiana, como a confecção de roupas, a construção de abrigos e a produção de alimentos, mas em se manter a salvo, tanto escondido do inimigo quanto preparado para combatê-lo quando de sua chegada.

Os deputados do Senado de Benguela se reuniam uma vez por semana, em uma casa da agrupação destinada exclusivamente para os encontros, quando discutiam, além de questões de administração, melhores táticas para manter Quariterê de pé. Usavam armas na defesa do quilombo, que adquiriam como espólio de combates ou via trocas; ali, plantava-se algodão, do qual era produzido tecido, superando o cultivo apenas para a subsistência dos moradores. Supõe-se também que produziam alimento excedente para por meio de trocas aumentar seu arsenal de defesa.

Além de uma agrupação que se forja como forma de resistência à escravização, um quilombo, em especial na região central do Brasil e ainda mais no período em questão – a passagem das Capitanias Hereditárias para o domínio do Marquês de Pombal – representava também o combate ao avanço da “ação bandeirante”. Em sua busca feroz por qualquer coisa que pudesse representar riqueza, perseguindo a ampliação da conquista do território e o domínio da terra, essas expedições mortíferas foram sustentadas pelos ombros africanos e promoveram o extermínio dos povos indígenas e dos recursos naturais por onde quer que passaram.

Tereza de Benguela foi assassinada pelo Estado, assim como outra mulher negra, de luta, nossa contemporânea: Marielle Franco. O mesmo Estado homicida que assassinou Anderson Gomes e José Piolho. Dele, além de uma imagem mítica, do rei de um quilombo caído do Rio de Janeiro “fiado nas mandingas com que o diabo o trouxe sempre enganado”, se sabe que morreu de tiro, depois de “algumas ciladas que fez aos soldados”. Já Tereza de Benguela foi “capturada” durante o ataque de uma “ação bandeirante” organizada especialmente para destruir o Quilombo de Quariterê, assim que se tomou conhecimento de sua localidade, em 1770.

A queda do quilombo não se deu sem luta, tampouco foi imediata. Na primeira investida, apanharam Benguela, que armou seu povo, homens e mulheres, negros e índios, com armas de fogo, arcos e flechas, e combateu na linha de frente. Mas o efetivo oficial era superior, em número e força, e Benguela e muitos de seus valorosos combatentes foram presos, torturados e mortos. O “Anal de 1770” relata que Tereza foi presa e que “em poucos dias expirou de pasmo”, antes de ter sua cabeça cortada e exposta na praça de seu quilombo.

Alguns interpretam esse “pasmo” como uma forma de suicídio. Pode ser. É provável que a mulher guerreira, dirigente de um exército e líder de um quilombo que resistiria ainda por mais 25 anos, tenha morrido de uma espécie de banzo. Essa, por vezes polêmica, identificação do banzo como “a nostalgia mortal dos escravos”, “a saudade que mata”, também é descrita como uma forma extrema de suicídio, como uma fuga dos “desgostos provenientes do cativeiro”.

Por mais simplificadora que sessa fórmula pareça, e em alguma medida, de fato o é, ainda mais se tomarmos as raízes do conceito no século XIX, não podemos negar que na história do termo subjaz a própria luta dos escravos contra seus senhores. Essa luta, que só é pacífica nos livros de história, adquiriu variadas formas, seja na resistência dos quilombos, na preservação da religiosidade e da cultura, no desenvolvimento da capoeira como arte marcial, nos confrontos diretos com o Estado ou no “pasmo” de Tereza. Que foi mesmo de banzo que morreu a mulher valente, obviamente, não se pode afirmar. Sabemos, isso, sim, com toda certeza, que foi pelas mãos de seus opressores e, ainda, que foi morte fulminante. Tanto quanto os tiros que alvejaram Marielle.

Neste 25 de março, portanto, não podemos esquecer de Tereza, é preciso se levantar, se revoltar, reivindicar sua história. Mas também é preciso gritar por Marielle e por todas as mulheres negras, brancas, pobres, mães, que veem a vida de seus filhos se extinguirem por ação do Estado homicida.

No Dia Nacional de Tereza Benguela, no Dia da Mulher Negra e em todos os dias, não nos esqueçamos: se for preciso, faremos Quariterê de novo!

¹ As citações do “Anal de Vila Bela de 1770” presentes neste artigo foram extraídas de: Emanuel de Almeida Farias Júnior, “NEGROS do GUAPORÉ – o sistema escravista e as territorialidades específicas”.

² A saudade que mata – pesquisa discute a polêmica questão do banzo como “nostalgia mortal” dos escravos.




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